Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

Desanimado, eu voltava do médico. Mais uma vez, eu tinha ido lá na esperança de finalmente me livrar de minha dor de coluna, mas foi de novo a mesma coisa, como nas outras inúmeras consultas: ele receitou analgésicos e mandou fazer fisioterapia. Era o que ele sempre passava e era o que sempre de nada adiantava.

Apesar da dor, resolvi ir caminhando devagar para casa e tive que atravessar uma floresta.

Eu refletia sobre a conversa com o médico e sobre minha frustração com o tratamento. Já não tinha mais vontade de voltar lá e pensava em buscar uma alternativa.

Perdido em pensamentos, tomei um susto quando escutei aquela voz arranhada e desafinada no meio do mato:

„Ei, você! Se perdeu por aqui?“

Olhei para o lado, mas primeiro não vi ninguém. Só depois de inspecionar bem o terreno é que vi aquela senhora pequena e idosa, sentada no meio dos arbustos e mirando com um olhar severo.

Era pleno verão e ela tinha na cabeça uma touca de lã, que parecia que não era lavada há séculos. Seu nariz era pontiagudo, com uma verruga enorme em cima da narina direita, e em sua boca faltavam quase todos os dentes, exceto os dois frontais, no lado de cima. Era impossível estimar sua idade: poderia ter 60, 70, 80, 90 ou mesmo 100 anos. Ou mais. Achei que ela parecia uma bruxa e a imaginei voando com sua vassoura pela floresta.

„Está com dor de coluna, né? Se quiser, eu posso ajudar”, disse ela em tom sério.

Fiquei primeiro surpreso dela saber da minha dor, mas depois concluí que ela simplesmente deduziu o lógico: eu andava no caminho pela floresta que vinha do consultório do ortopedista, para onde se vai normalmente quando se quebra algum osso ou quando se sofre de dor mecânica em algum lugar. Ela apenas soube contar 1 mais 1: eu não tinha nada engessado e andava um pouco torto. Não era necessário nenhum dom especial para adivinhar.

“Sim”, respondi e resolvi brincar a brincadeira dela. “Como é que a senhora sabe que tenho dor de coluna? Bruxaria?”, perguntei.

Ela se aproximou, me olhou sério e disse:

„Bruxaria sim. Se eu não soubesse nem isso, meu filho, seria mesmo uma bruxa de segunda categoria”. Deu depois uma gargalhada alta e começou a andar em círculo em torno de mim.

„Hmmmm“, disse ela, „estou vendo! O doutor tá ganhando um bom dinheiro nas suas costas. Esperto, esperto! Mas não adianta. Seu problema não tá na coluna não!“

„Não?“, perguntei, curioso. “Está aonde, então?“

„É azedura, meu filho, é azedura. Teu corpo tá azedo. E azedura inflama e dói na coluna. Tem que cuidar é da azedura!”.

Escutei ela dizer isso e fiquei surpreso. O que ela dizia fazia sentido, já que um corpo muito ácido (por exemplo, por causa de alimentação desequilibrada, com muita carne e poucas verduras e legumes) tende a sofrer mais facilmente de inflamações. Eu não me sentia „azedo“, mas resolvi escutar o que ela me dizia até o fim.

„O que a senhora me recomenda para acabar com a azedura?“. Percebi que ainda não sabia seu nome e completei com a pergunta: “E como a senhora se chama?”

Ela me olhou, ficou calada por um tempo e depois saiu andando, se afastando de mim. Parou e disse que o nome dela era Suzana.

“Mas pode me chamar de Suzi. Suzi para os mais íntimos”, disse e deu outra gargalhada bem alta.

“Mas como é que devo dizer? Dona Suzi, Mãe Suzi…?“, perguntei, causando nela muita indignação:

„O quêêêêêêêê? Dona? Tá me chamando de véia, meu filho? Que é isso? Tô na flor da idade! E Mãe Suzi, porque Mãe Suzi? Eu sou B-R-U-X-A, de carteirinha e tudo. Não sou mãe de santo não! O negócio aqui é outro. Enquanto as mamães ficam lá chamando pelos santos, eles tão tudo em minha cozinha tomando café comigo. Faça essa comparação não, pois o poder da bruxa aqui é outro!”

“E então, como devo chamá-la?”, insisti.

“Suzi mesmo. Mas se quiser chamar de Suzinha, aí eu me derreto toda”, disse isso e largou outra gargalhada.

Depois ela caminhou para uma árvore, pegou uma sacola que estava no chão e tirou um saco plástico com um pó branco, um pouco rosado. Ela me trouxe o saco e disse que era um sal milagroso, vindo direto de uma grota no Rio Grande do Norte, e que eu deveria tomar banho com ele.

Não entendi direito e perguntei se era para tomar banho como se toma banho de folhas, colocando o sal numa vasilha com água para depois jogar de cuia na cabeça.

Novamente ela ficou indignada, nada feliz com minha comparação:

„Banho de folhas coisa nenhuma, seu filho de uma morcega zarolha! Que coisa! Folha ajuda quando você ferve, faz chá e bebe. Folha não é para tomar banho. Moço, se banho de folha resolvesse alguma coisa, não existiria baiano infeliz”, disse Suzi, soltando mais uma de suas gargalhadas. E depois prosseguiu:

“Não, menino, você tem que tomar é banho numa banheira e botar o sal dentro. Tem que ficar uma hora na banheira com a água batendo nas pontas das zorelhas. Uma hora, nem mais, nem menos. Depois a azedura some. Mas tem de fazer direito”.

Olhou-me da cabeça aos pés e continuou:

„Creia, meu filho, que você fica bom. Leva o sal, é de graça, mas me dê 20 reais aí, senão o sal não ajuda”.

Normalmente, seria esse o ponto em que eu pularia fora. Sempre vem o momento nessas conversas quando se quer dinheiro. E a mulher queria me vender meio quilo de sal por 20 reais! Sim, seria a hora de ir.

Por outro lado, eu estava adorando tudo aquilo. Sentia-me no mundo do faz de conta com uma bruxa de verdade. Achei que todo aquele conto à minha volta valia os vinte reais. Comprei o sal, me despedi de Suzi e fui embora, acreditando que aquele sal jamais iria parar comigo dentro de uma banheira.

À noite, entretanto, não conseguia dormir. Tanto fazia como eu deitava, a coluna incomodava muito. Não queria tomar um comprimido, pois esses remédios já estavam fazendo mal à minha barriga. Foi aí que lembrei do sal da bruxa Suzi e resolvi tomar esse banho para acabar com minha azedura. Naquele momento, eu não tinha mesmo muitas opções e não custava tentar.

Entrei na banheira e fiquei lá naquela água com sal, por uma hora. Difícil era entender o que ela quis dizer com “a água batendo nas pontas das orelhas”. Que pontas, de cima ou de baixo? Com a cabeça para cima, para a água bater nas pontas de cima, só ficavam os olhos e a testa de fora, eu me sentia como um crocodilo espreitando a presa e não conseguia respirar. Inclinei então a cabeça para liberar o nariz e fiquei ali, paralisado nessa posição, com a água batendo nas pontas de baixo das orelhas, mas inseguro se eram as pontas certas.

Exatamente uma hora depois, com a pele já murcha e a água fria, saí da banheira e me perguntei se a azedura teria realmente passado.

Percebi que minha dor de coluna continuava lá e não senti nenhuma diferença. Resolvi me secar, me vestir e ir dormir. Ao passar na frente do espelho, vi que minha pele estava cheia de manchas vermelhas.

Um pouco depois, aquilo começou a coçar. Desesperado com tanta coceira, lembrei-me do sal e caí no chuveiro para lavá-lo completamente.

Depois do banho, a coceira melhorou, mas, no dia seguinte, eu ainda tinha várias manchas espalhadas por todo o corpo, que foram desaparecendo aos poucos.

Quanto à minha azedura, não sei se eu antes estava azedo ou não. Só sei que, depois dessa história, fiquei foi mais azedo que limão verde. De raiva.

É nisso que dá confiar em bruxa de beira de caminho, que com certeza nem voar com a vassoura ela sabe.

Moral da história: tenha sempre cuidado com qualquer promessa de cura milagrosa.

Texto publicado no site Caminhos

 

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