Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

Era feriado. Mesmo assim tive de trabalhar muito. Para freelancers não importam os feriados. Trabalha-se quando é necessário. Na verdade, só me dei conta do feriado quando vi que a geladeira estava vazia e disse a meu filho no telefone que iria ao supermercado e ele me disse que estaria fechado. Não tinha nada para comer em casa e continuei trabalhando de barriga vazia, abastecido por uma caneca de café e vários copos de água.

Sou uma pessoa que não precisa comer muito e posso esperar bastante pela próxima refeição. E foi assim também naquele dia. Estressado com o trabalho e sem ter (ou melhor, sem tomar!) o tempo para ir providenciar algo para comer, terminei não comendo nada o dia todo, só gastando energia, sem repô-la, mas sem que isso me incomodasse muito. Somente no final da tarde, quando me sentei para escrever algo, mas não pude me concentrar, é que percebi o quanto estava com fome. Minha cabeça doía um pouco e meu estômago roncava. Resolvi então ir à lanchonete turca na esquina e ver o que eles tinham para oferecer.

No caminho, encontrei um vizinho, que parou para me contar algo. Foi um encontro rápido, já que ele mesmo estava com pressa, mas essa curta conversa me pareceu uma eternidade. Percebi que eu estava impaciente, mal-humorado e só conseguia me concentrar com muito esforço no que ele dizia. Fui cortês o suficiente, mas comecei a andar devagar, dando a entender que precisava continuar. Nos despedimos e prossegui, guiado por meu estômago, me sentindo fraco, meu estado acusava um baixo nível de glicose no sangue.

Fui à lanchonete, comi, venci a fome e voltei ao trabalho. Só que, ao me sentar, novamente não conseguia me concentrar, dessa vez porque não parava de pensar na fome, não na minha fome, pois tenho a sorte de possuir recursos suficientes para vencê-la sempre que necessário. Normalmente basta ir na cozinha e comer alguma daquelas coisas compradas convenientemente no supermercado ou dar uma saída e comer algo fora. Eu pensava na fome dos outros, dos muitos outros por esse mundo afora, que não têm a mesma sorte e vão muitas vezes ou mesmo diariamente com a barriga vazia para a cama. Mais uma vez eu via tão clara a desumanidade por trás da fome e quão perversos temos que ser para permitir que ainda hoje pessoas existam pessoas famintas. Pensei também nos desperdícios, com as toneladas de alimentos jogadas fora por aqueles que pelo jeito têm mais que o suficiente, pensei na mentalidade de consumo e desperdício e pensei no quanto tudo isso é injusto. Se eu já fiquei mal-humorado, nervoso e fraco depois de somente um dia sem comer, indigna-me imaginar no sofrimento de quem chega a passar dias sem digerir nada.

A fome sempre é indigna e desumana

A fome sempre é indigna e desumana

Pensei então em um homem que conheci há muitos anos. Eu estava de visita em sua casa e fui com ele fazer compras no supermercado. Ao chegarmos nos temperos, sugeri comprar orégano e o homem reagiu de uma forma estranha, nervosa, rejeitando minha sugestão e dizendo que não comia orégano de jeito nenhum. Fiquei curioso e perguntei se ele tinha alguma alergia e ele respondeu que me explicaria depois.

No caminho de casa, ele me contou de sua infância pobre, sem recursos. Seu pai ele nunca conhecera e sua mãe teve que se virar sozinha para criar os quatro filhos. Ele contou que andava com seus irmãos pelas ruas, com os olhos atentos, catando de tudo que pudesse ser reaproveitado e vendido, pedindo esmolas, lavando carros e buscando qualquer oportunidade para ganhar um dinheirinho para ajudar a mãe. Ele disse então que o pior de tudo era a fome, era o sentimento de angústia que ele sentia toda vez que comia alguma coisa, pois comia aquilo sem saber quando comeria novamente. Contou-me da apatia, do sono que sentia e que ia dormir para esquecer a fome, mas que o ronco da barriga atrapalhava. E contou das crises de fraqueza que sentia, com a vista ficando escura, as pernas cambaleando e sua boca produzindo tanta saliva que o fazia babar. Contou-me depois a história do orégano, do dia em que ele chegou em casa fraco e faminto e viu em cima da mesa um prato coberto, um prato com comida que a mãe havia deixado ali para ele. Não era muito, um pouco de arroz e feijão, batata e um pedaço pequeno de carne, o que para eles já era um luxo.

Sentou-se para comer e estranhou o cheiro da comida. Ao cheirar mais de perto, percebeu que era a carne, que não estava boa. O dia estava quente e o prato deve ter ficado muito tempo ali na mesa. Eles não tinham geladeira. A carne estava estragada e já cheirava mal. Ele sentia nojo e queria jogar a carne fora, mas a fome era maior e o fez se levantar da mesa e procurar nos armários, achando um pacote de orégano seco. Ele disse que jogou todo o orégano em cima da carne e a comeu assim mesmo. Desde então, nunca mais conseguiu comer e nem sequer cheirar orégano novamente.

O mais triste dessa história é que ela é bem mais comum do que podemos e queremos imaginar. Tem muita gente passando fome neste mundo. As causas são diversas, guerra, terrorismo, seca, injustiça social… Mas uma causa comum a fome sempre tem: a indiferença, a nossa indiferença. Sabemos que a fome existe, que ela está aí, que tem gente que sofre e até nos indignamos, mas depois voltamos a pensar se hoje queremos comer carne ou pizza.

Ontem mesmo escutei que a ONU está com dificuldade de arrecadar 4,5 bilhões de dólares até julho para evitar uma catástrofe humanitária na África, onde muita gente está passando fome. 4,5 bilhões que pelo jeito achamos muito para combater a fome, mas que gastaríamos sem pensar duas vezes se fosse para enviar um robô para Marte. Ou preferimos gastar outros bilhões para construir muros e cercas que devem então manter os famintos longe de nós.

Eu era adolescente, descia de ônibus para a Cidade Baixa e observava pela janela a vida lá fora. Paramos em um congestionamento, em cima de um viaduto e eu via lá embaixo o fundo do supermercado Paes Mendonça. Funcionários empurravam tonéis de lixo para fora, provavelmente para que fossem esvaziados pela coleta. Naquele momento, uma multidão maltrapilha invadiu literalmente o lugar, se apossou dos tonéis e começou a catar comida. O ônibus prosseguiu viagem, deixando aquela gente faminta para trás, mas aquela cena me acompanha até hoje.

A desumanidade da fome

A fome é indigna, é desumana e é uma vergonha para nós…

A fome é indigna, é desumana e é uma vergonha para nós, que nos julgamos seres superiores, que achamos que a raça humana teria algo de racional. É uma vergonha porque não há motivo para ninguém passar fome neste mundo, há recursos suficientes para todos, o que falta é a vontade política de acabar com algo que já deveria ter deixado de existir há muito tempo. E essa vontade política tem que vir de todos nós.

A fome é algo tão perverso e desumano que termina atingindo a todos. Porque saber que tem gente passando fome e não fazer nada contra isso seria concordar que milhões de pessoas morram aos poucos, diariamente, que crianças, quando sobrevivem, fiquem marcadas para sempre em seu desenvolvimento, que pais e mães sofram por ver seus filhos indo para a cama de barriga vazia.

Sim, os pais e as mães! Fico imaginando o sofrimento. Nós já ficamos desesperados quando nossos filhos pegam um resfriado bobo. Como deve ser então para um pai ou uma mãe quando vê seus filhos com fome, fracos, apáticos, tendo que comer o que encontra, lixo, restos, qualquer coisa? É muito fácil criticar pais pobres, dizendo que eles “não deveriam colocar filhos no mundo se não podem cuidar” e coisas parecidas, mas acho muito mais urgente entender que esses filhos estão aí, esses pais e mães também e que é extremamente desumano permitir que crianças passem fome dessa forma e que seus pais sofram imensamente por isso.

Repare só: se você visse alguém no meio da rua, ferido e sangrando, você concordaria que, naquele momento, o mais importante não seria discutir o porquê daquela pessoa estar sangrando, mas ajudá-la, pedir socorro, levá-la o mais rápido possível para um hospital. Seria indigno e desumano deixar aquela pessoa ali e não a socorrer. Pois então, o mesmo não vale para a fome? Uma pessoa faminta não é uma “pessoa que sangra”, que também está correndo risco de vida, que precisa de ajuda urgente?

Outra coisa que deveríamos perceber é que acabar com a fome ou reduzi-la drasticamente nem seria um ato meramente altruísta, pois todos sairíamos ganhando com isso. A redução da fome ajudaria a reduzir também muitos conflitos e qualquer redução da pobreza tem efeito positivo sobre os índices de criminalidade. Um mundo com menos fome seria um mundo mais seguro. Além disso, perceber a desumanidade da fome nos tornaria mais humanos e isso poderia ser um bom começo na construção de um mundo melhor. E poderíamos então nos olhar no espelho sem sentir a vergonha que sente ou deveria sentir quem é indiferente a um sofrimento totalmente desnecessário que acomete tanta gente.

Todos nós podemos fazer algo contra a fome e já podemos começar reduzindo nossos desperdícios, pois eles, além de significar que estamos jogando comida (e dinheiro!) fora, são indecentes, imorais. Como podemos saber que tem gente que faria de tudo por um prato de comida e, ao mesmo tempo, jogar toneladas de alimentos no lixo? Os números de desperdício de alimentos no mundo são exorbitantes e é alarmante saber que o que jogamos fora já bastaria para extinguir grande parte da fome no planeta. Portanto, tenha cuidado para não desperdiçar alimentos. E, se você comprou demais e perceber que vai perder alimentos, passe-os adiante antes de estragar. Com certeza, tem alguém por perto que ficaria muito grato por poder comer aquilo que você sabe que não vai precisar. E proteste quando souber de supermercados que jogam alimentos ainda consumíveis no lixo, ao invés de doá-los a alguma instituição de caridade.

A fome não é exigente: basta contentá-la; como, não importa.

Sêneca

Outra coisa simples, que qualquer um de nós pode praticar sem maiores esforços, é simplesmente não julgar. Quando alguém lhe disser que está com fome e lhe pedir comida, não julgue a pessoa e não tente culpá-la por sua situação. Você tem até o direito de negar a ajuda (ninguém é obrigado a nada!), mas não lhe compete julgar quem a pede. Repito: uma pessoa faminta é como uma pessoa sangrando. Se ela está com fome, deveria ser ajudada sem maiores complicações. E quem está com fome quer comida, não sermão.

Cada um de nós pode também ajudar a combater a fome através de doações, direta a quem não tem recursos, ou através de instituições que trabalham nessa área.

Só não seja indiferente diante da fome. Faça sua parte.

Agora, se queremos realmente acabar com a fome ou pelo menos reduzi-la de forma significativa, nossa maior contribuição estaria em nossas escolhas políticas. Nosso voto é nossa principal arma contra a pobreza e a fome. Podemos ajudar muito quando escolhemos governantes realmente preocupados com os problemas enfrentados pela população e não governantes somente envolvidos com a defesa de interesses próprios ou dos grupos que eles representam. Acho que não deveríamos votar por simpatia ou ideologia, mas ser simplesmente pragmáticos e escolher aqueles governantes que realmente pareçam interessados e dispostos a praticar uma política que fomente a justiça social e reduza as desigualdades. Acho que é aqui que carregamos nossa maior responsabilidade. A fome do mundo é um problema político. Então é com política que podemos e devemos resolvê-lo.

Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.

Mahatma Gandhi

 

O direito de se alimentar é um direito fundamental de todos

O direito de se alimentar é um direito fundamental

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Categoria: Destaque, Sociedade

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