Gustl Rosenkranz
Angela Merkel: a mulher que quebrou a dominância masculina na política alemã
Imagem: Photo YourSpace / flickr
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Angela Merkel: a mulher que quebrou a dominância masculina na política alemã

Angela Merkel mudou a cultura política do país, quebrando a predominância masculina no poder e abrindo caminho para muitas outras mulheres que ocupam hoje cargos importantes na política federal.


Tomei conhecimento de Angela Merkel pela primeira vez no início dos anos 90, quando ela se tornou Ministra da Mulher e da Juventude no terceiro gabinete de Helmut Kohl. Na época, ela não era levada muito a sério e tinha o apelido desrespeitoso de “Kohls Mädchen” (a menina de Helmut Kohl). Depois da queda do Muro de Berlim, ela, que vivia na antiga Alemanha Oriental, ingressou na CDU (União Democrata-Cristã) e sofria com comentários maliciosos dos colegas por ser mulher e por ser do Leste (do lado que antes era comunista).

A política federal alemã era dominada por homens, normalmente já de certa idade, que se sentiam seguros em suas cadeiras, tão seguros que subestimaram „a menina de Helmut Kohl”. Sem chamar muito a atenção, ela foi „eliminando“ aos poucos seus adversários dentro do partido e preparando o caminho para assumir a liderança política do país.

Muitos foram os homens que a desafiaram, que questionaram sua autoridade e tentaram serrar a perna de sua cadeira, mas o que eu vi foi um por um sendo mandado para escanteio. O mais interessante de tudo foi (e é!) seu jeito de ir se impondo sem muito alarde, sem show ou teatro. Segura de si e de sua meta política, ela foi assumindo cargos decisivos no governo e no partido, tornando-se Ministra da Mulher e da Juventude, depois Ministra do Meio-Ambiente e da Segurança Nuclear, Secretária-Geral da CDU, da qual se tornou presidente no ano de 2000. Cinco anos depois, ela foi eleita como Chanceler Federal da Alemanha, sendo a primeira mulher a assumir a liderança do governo.

Sim, muitos foram os homens que tentaram impedir sua ascenção política, mas, como já dito, um por um foi desaparecendo do cenário político, como Roland Koch (o ex-governador do estado de Hesse, que tinha maiores ambições no partido),  Laurenz Meyer (ex-Secretário-Geral do partido, que já entrou no cargo desafiando Angela Merkel, mas que não sobreviveu por muito tempo), Friedrich Merz (chefe da facção da CDU no parlamento), Edmund Stoiber (ex-governador da Baviera, do partido CSU) e até mesmo Wolfgang Schäuble, que era presidente do partido quando ela foi secretária e que fazia questão de frisar que ele era o chefe, mas que veio a ser Ministro das Finanças sob o comando de Merkel.

Angela Merkel:
Laurenz Meyer, Roland Koch, Friedrich Merz e Edmund Stoiber: homens que tentaram derrubar Angela Merkel, mas terminaram caindo eles mesmos.

Uma olhada na história e nos acontecimentos deixa claro que os principais adversários de Merkel estavam (e estão!) em seu próprio partido e no „partido irmão“ CSU (União Social-Cristã), que só existe na Baviera.

Por muito tempo, Angela Merkel governou com alta popularidade, uma popularidade que ia muito além das fronteiras do país, sem que houvesse em seu ou mesmo em outros partidos alguém que realmente ameaçasse sua carreira política.

Quando sua popularidade caiu com a chegada de centenas de milhares de refugiados em 2015, com políticos populistas de extrema direita tentando usar a insegurança da população para desestabilizar a posição de Merkel, seus „companheiros” da CDU e principalmente da CSU não perderam tempo para atacá-la, talvez convictos de que dessa vez ela seria afastada do poder.

Mas no que foi que isso deu? Hoje, 14 de março, Angela Merkel foi reeleita Chanceler Alemã pelo Bundestag (o Parlamento Alemão) e iniciou seu quarto mandato. No final dessa legislatura, ela estará há 16 anos na frente do governo, atingindo o mesmo tempo de Helmut Kohl, que foi, até agora, o Chanceler que passou mais tempo no poder.

O principal adversário de Merkel no cenário político atual, Horst Seehofer, da CSU, que até ontem era governador da Baviera e que não dispensou, nos últimos anos, nenhuma oportunidade de atacar a Chanceler, passou hoje a ser Ministro do Interior em seu governo. Ou seja: a mulher que ele tanto criticou é agora sua chefe.

Horst Seehofer
Horst Seehofer, CSU. ex-governador da Baviera

Não é minha intenção defender a política de Angela Merkel. Muito mais, quero chamar atenção para um mérito de Merkel que ninguém pode negar: gostando dela ou não, concordando com sua política ou não, temos todos que admitir que ela mudou a cultura política do país, quebrando a predominância masculina no poder e abrindo caminho para muitas outras mulheres que ocupam hoje cargos importantes na política federal. Não que não houvesse mulheres em cargos importantes antes da „era Merkel”, mas havia um claro domínio dos homens.

E o mais interessante de tudo é observar o tamanho da prepotência masculina também na Alemanha e do que mulheres são capazes, mesmo quando são grotescamente subestimadas, como foi Angela Merkel.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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