Gustl Rosenkranz
Barulho em Salvador
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Grita Salvador!

Estava sentado numa praça, em Salvador, querendo telefonar, mas havia muito barulho à minha volta, com muita gente falando alto, risadas, música e gritarias, buzinas de carro e camelô gritando. Frustrado e irritado, desisti do telefonema, peguei caderno e caneta na mochila e escrevi este desabafo.


Salvador barulhenta
Quem é que aguenta?
Zoada infernal
Que coisa animal!
Povo não fala
Este povo só grita
É tiro de bala
Buzina o motorista
Tornando restrita
A paz de quem sonha
Olha a pamonha!
Picolé da Capelinha!
Ai, acarajé da Cidinha!
E me passa a carreta
Depois uma lambreta
Assustando o cachorro
Que agora late
O latido me bate
Quase que morro
Ou dali corro
Buscando o sossego
Pedindo arrego
Em outras bandas
Mas banda toca
Tanto faz onde andas
Principalmente em maloca
E cantos afins
Capitalismo tupiniquim
Inflação sonora
A toda hora
Sem pena de mim
Lugar pitoresco
De povo tão fresco
Que grita por tudo
Melhor fosse mudo
E não falasse tanto
Causando espanto
Papo graúdo
Tão sem conteúdo

Som exagerado
Democratizado?
Não, ditatório!
Pois não se tem escolha
Não existe recolha
Nem mesmo uma rolha
Para enfiar no ouvido
Já assim dolorido

Música, falatório
Oratório, velório
Culto de crente
Essa aqui é outra gente
Que não vale o que sente
Pois grita na igreja
E fala para Deus
Como se ele fosse surdo
Para que tal absurdo?
E o alto-falante?
Para a rua apontando
Som exorbitante
O povo maltratando
Para que gritam tanto?
Gritam mesmo para o Pai?
Não creio muito, rapaz
Pois Ele ouve bem
As mentiras também
Não será falso o encanto
A pregação e o canto
E todas aquelas rezas
Destinados na verdade
Ao chifrudo nas trevas
Que de lá de baixo
Só ouve a metade?

Motoqueiro adoidado
Escape manipulado
A paz azoando
Todo se achando
Acreditando realmente
Ser gente importante
Sem perceber
A limitação do rapaz
Ainda incapaz
Que não tem condição
Para duas rodas a mais

Barulho ridículo
Logo mais, o político
Com som aloprado
Carro de som alugado
Pois quer ser eleito
Pensa que tem jeito
Se me maltrata
Fazendo campanha
Já que político tem manha
Pois som alheio proíbe
Mas o próprio não inibe
Acreditando que ganha

Trânsito entupido
Mil buzinas disparam
Quer vender a buzina?
Vê se não me azucrina!
Xinga não, motorista!
Cale a boca, sacrista!
Discussão engarrafada
Coisa que não leva a nada
Mas a pista parada
Faz o povo nervoso
Condutores pirracentos
Ânimo aquecido
O enfermo esquecido
Dentro da ambulância
Quanta ânsia!
O sujeito penando
Uma insulta!
A sirene chorando
Motoristas brigando
E o choro, ninguém escuta

Ô menino, vem cá!
Grita a mãe de lá
Vem pra casa, menino!
Não precisa gritar
Necessidade não tem
Basta chamar
Que o menino vem
Se não vem o danado
Foi mal educado
E nem com grito virá

Passa o bêbado cantando
De cantar ele gosta
Só que ninguém entende
Porque então não aprende
Ou não fica calado
Pois bêbado não canta
Ele a todos espanta
De tão desafinado

É briga na rua
Obra aqui e acolá
Olhaverdura, freguês!
E a polícia vem lá
Mas não reclama com o vizinho
Que comprou um som novinho
Só para me aporrinhar
Na verdade, não pode
Mas me tortura o pagode
Até o dia raiar

Imagine você:
Devedê, devedê, devedê!
Coisa de camelô
Um horror!
Terror sem fim
Mas é assim que estou
Coitado de mim
Grita Salvador!

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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