Melhor bicha do que bicho! – Sobre a estupidez homófoba masculina


 

Quem já se desentendeu com homem, sabe que o risco é grande dele partir para a violência, verbal ou mesmo física, assim que lhe faltem argumentos (o que pode acontecer rapidamente, a depender do exemplar masculino que se tem à frente). Parece que a evolução falhou aqui, preservando em certos sujeitos aqueles instintos primitivos que os levavam a rosnar e bater no peito quando tinham que resolver algum conflito na idade da pedra lascada.

Eu mesmo já me vi confrontado muitas vezes com homens incapazes de processar suas frustrações, de admitir limitações e erros, de simplesmente aceitar que o outro não pensa como ele. Orgulho masculino é ferido rapidamente quando a autoestima é baixa e quando hormônios substituem neurônios, fazendo com que o homem vista a máscara da valentia para disfarçar suas restrições de mente e espírito.

Homens assim, quando se encontram, parecem galos no terreiro. Mesmo quando não brigam, se comparam, estofam o peito de ar e procuram mostrar uns aos outros que cada um é mais macho que os demais. Falam então de si, contam vantagens e (o que acho o pior de tudo!) falam do sexo feminino com tremendo desrespeito, das mulheres como se fossem seus brinquedos/objetos e contam descaradamente intimidades sexuais para vangloriar o próprio desempenho, normalmente mentindo e aumentado, falando de uma virilidade que não têm. Comportam-se pior que animais, já que esses pelo menos respeitam suas fêmeas e não as desprezam tanto assim em nome de uma masculinidade conturbada, doentia.

Sim, esses homens, quando se encontram, gostam de se gabar e contar vantagens e lorotas para afirmar que são machos, ignorando o fato de que não precisariam disso se fossem homens de verdade.

Problemático é então quando você, que também é homem, mas com a sorte de ter recebido outra educação e entendido que homem não tem que ser “macho” para ser homem, se vê numa roda dessas, cercado desses marmanjos tão isentos de valores. Ser homem diferente diante desses “machões limitados” não é tarefa fácil, pois eles se sentem ofendidos e agredidos só pelo fato de você não ser igual a eles. Isso abala sua convicção de serem supostamente superiores, machos de verdade. Então, aquele que é diferente, tem que ser combatido; e ele é combatido! É necessário combatê-lo urgentemente, já que homem diferente questiona a crença deles numa masculinidade arcaica. E isso não pode ser aceito de forma alguma!

A coisa pode ficar perigosa, com homens (galos?) partindo para a briga, buscando pretextos para agredir. Uma forma, claro, é a agressão física mesmo, o maior atestado de incapacidade social que um homem pode dar de si. Mas nem precisa chegar a tanto. Mais comum é o tentar diminuir o “homem diferente”, é questionar sua masculinidade, e aqui acontece muito desse homem (que não entra no jogo dos gorilas) ser taxado de “bicha”, independentemente dele ser ou não homossexual, no intuito de insultá-lo e diminuí-lo como homem. E é aqui, exatamente aqui, que vejo um grande problema (e mais um atestado de enorme estupidez):

Desde quando chamar alguém de homossexual é insulta? Somente uma alma mesquinha vai chamar alguém de homossexual no intuito de ofendê-lo ou diminuí-lo. Isso não faz qualquer sentido.

Uma vez, no meio de uma discussão, fui chamado de “bicha” – por discordar de opiniões masculinas sem nexo. Não me contive e comecei a rir. O sujeito que tentou me insultar me olhou perplexo e perguntou por que eu estava rindo. Apontei a estupidez de sua tentativa de ofensa, que não me ofendeu em nada. Disse para ele que mudasse o repertório e me chamasse de ladrão, de pessoa sem caráter, de alma limitada, pois essas coisas sim talvez me ofendessem, mas chamar-me de homossexual? Por que isso deveria me ofender? Ignorância sem fim!

Podem me chamar de “bicha” que não me importo. Ruim seria é ser chamado de “bicho” e ser comparado com esses homens limitados.

 

Se a palavra “homossexual” (e seus derivados: homo, bicha, viado…) fosse uma insulta, acho que então a palavra “heterossexual” deveria ser uma insulta muito maior, já que são homens heterossexuais que têm espalhado muita miséria neste mundo, estuprando e matando, escravizando e maltratando mulheres (e não somente!).

Para mim, a sexualidade de alguém é coisa dele. Não me interessa com quem ele tem ou deixa de ter sexo. O que pessoas adultas praticam entre quatro paredes é problema delas e não meu. Quando conheço alguém, não me interessa se ele transa com homem, mulher, com extraterrestres ou consigo mesmo. Contando que poupem crianças e animais, cada um que faça o que quiser nesse sentido. Não escolho as pessoas com quem me relaciono por causa de sua orientação sexual, mas por aquilo que elas me acrescentam. É o caráter, a boa educação, o senso de justiça e de solidariedade, o respeito ao próximo, o cuidado com o outro, o cuidado com o planeta, as boas ações e coisas assim que definem uma pessoa e fazem a diferença e não sua vida sexual. Assim, digo francamente aos machões primitivos que prefiro mil vezes uma “bicha” que me acrescente algo do que um “bicho” que nada traz de interessante dentro de si.

Nota do autor: o uso da palavra “bicho” para definir “machão primitivo” não tem qualquer intenção de desrespeitar e ofender os animais. Já pedi desculpas a meu cachorro por isso 🙂

 

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.