Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

Aqui na rua mora uma mulher que sempre vejo sair para passear com o cachorro. Nunca tinha tido a oportunidade de conversar com ela, nem mesmo de chegar perto, pois, sempre que ela me via com meu cachorro, ela literalmente fugia, mudando o lado da rua.

Mas tive a oportunidade de observá-la à distância várias vezes e vi que ela sempre dava várias voltas no quarteirão, em passos nervosos e impacientes, sempre falando muito com o cachorro.

Ontem a encontrei. Como eu desta vez estava sem cachorro ao lado, ela não fugiu e, ao chegar perto de mim, puxou conversa.

Ela me explicou o estresse que estava tendo com o cachorro e me contou o quanto estava preocupada, pois achava que ele sofria de prisão de ventre, já que sempre demorava muito para defecar. Ela já estava até pensando em procurar um veterinário por causa disso. Sempre demorava muito e ela ficava ali, dando voltas, esperando ele fazer para poder voltar para casa.

Entendi então porque ela passeava tão estressada e falava tanto com o bicho. Fiquei imaginando o que ela dizia ao cão. E imaginei algo como “Ô, meu lindo, faz logo, bota para fora, faz uma pressãozinha que sai…”.

Para mim estava claro que o problema do cachorro não era prisão de ventre, mas sim muita esperteza do bicho, que entendeu que fazer cocô significava fim do passeio. Como ele não queria voltar logo para casa, é claro que ele não tinha pressa alguma em fazer isso.

Era essa a informação que ela, a vizinha, sem querer, passava para seu animal. E ela subestimava sua inteligência.

Expliquei-lhe isso e ela ficou admirada, mas entendeu e agradeceu, e perguntou o que ela então deveria fazer para ele parar com isso. Disse-lhe que ela precisava corrigir na cabeça dele a informação de que fazer cocô significa obrigatoriamente ir depois para casa, que era necessário dizer a ele que isso não é assim.

Para minha surpresa, a mulher se agachou na frente do cachorro, o olhou nos olhos e começou a fazer uma palestra sobre o assunto, explicando que ele não deveria mais ter medo de ir para casa depois de satisfazer suas necessidades, que ele tinha entendido algo errado, etc.

O cachorro não entendeu nada. Nem eu. Tive que me conter para não rir. Depois lhe expliquei que não era assim que se diz algo a um cachorro. Disse-lhe que ela continuasse passeando como sempre fez. Só que, quando o cachorro defecar, ela não deveria tomar logo o caminho de casa, mas passear por mais 5 ou 10 minutos. Com o tempo, o cão entenderá que „fazer cocô“ e „ir para casa“ nada tem a ver uma coisa com a outra.

Ela agradeceu sorridente e foi embora. E eu tive mais uma vez a impressão de que um cão conhece melhor seu humano que o humano seu cão.

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Categoria: Cachorrices

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