Nossas verdades




A verdade existe? Sim, claro que ela existe. Você está lendo este texto e isso significa que você está vivo. E isso é verdade. Se você está vivo, isso significa que você respira. E isso também é verdade, como muitas outras coisas: o mundo gira, o sol aquece, a chuva molha, vivemos uma vida e morreremos um dia…

Na verdade, há muitas verdades, umas incontestáveis, que chamo de concretas (ou objetivas), mas já outras relativas, que chamo de abstratas (ou subjetivas). Se você parar na frente de uma casa, por exemplo, e constatar que aquela casa existe, naquele lugar, isso não se pode negar, já que ela realmente está ali. E isso é uma verdade concreta, que não se pode contestar. Mas isso muda quando você diz que aquela casa é feia, pois outras pessoas podem achá-la bonita. Então, é verdade que a casa é feia, mas ela é feia para você. E essa é uma verdade abstrata, que só existe a partir de um determinado ponto de vista, que depende de quem a vê ou a define.

Seria importante diferenciar entre esses dois tipos, sempre que falamos da verdade, mas, infelizmente, nem sempre percebemos essa diferença, confundindo nossas verdades abstratas com verdades concretas. Pegamos então nossas verdades relativamente verdadeiras e as transformamos em verdades absolutas, tentando impô-las a outras pessoas, já que acreditamos que elas são incontestáveis. E assim podemos ver duas pessoas brigando na frente daquela mesma casa, já que uma a acha feia e a outra a acha bonita, sem entenderem que ambas as verdades são certas, já que são abstratas, já que dependem da forma de cada um ver a casa, de seus gostos e suas expectativas.

Vejo muito essa confusão entre as verdades concretas e abstratas em relacionamentos amorosos, por exemplo, quando o casal passa por uma crise, briga muito e se distancia. Quando converso então com os dois, percebo as duas verdades e que não raramente ambos têm razão. Mesmo assim, cada um dos dois muitas vezes acredita que está certo, que o outro está errado e que a sua verdade abstrata é a única que conta.

Nada disso seria tão grave se essa confusão de verdades ficasse limitada a situações mais ou menos inofensivas da vida, mas vamos muito mais além e pegamos também nossas verdades abstratas sobre temas mais complexos e tentamos forçar os demais a acreditarem em sua veracidade, por mais absurdas que elas possam ser. E, com essas verdades na mão, tentamos missionar, convencer, forçar, persuadir, às vezes como militantes fanáticos, que olham para frente e só veem sua crença, convictos de que não há nada mais de verdadeiro no mundo.

É aí que vejo então gente transformando suas verdades em verdades de validade geral e usando-as para maltratar, discriminar, segregar, oprimir outros seres humanos. Uns chegam ao ponto de chamar sua verdade abstrata de verdade divina, falando em nome de Deus, coisa que nunca acho certa, já que uma verdade divina teria sempre que vir de Deus. Quando ela vem de gente, como eu e você, ela só pode ser terrena, foi criada por gente, que pode sempre (!) está equivocada.

Verdades abstratas têm normalmente origem naquilo que nos foi ensinado ou (pior ainda!) em nossos medos ou em nossa prepotência e vontade de dominar. Se alguém, por exemplo, tem pele clara e aprendeu em sua família que pessoas de pele clara são superiores àquelas de pele escura e sai por aí pregando isso, esse alguém estaria preso numa consciência errada, acreditando realmente que essa verdade abstrata (e nesse caso absurda!) de sua família seria uma verdade concreta, assumindo assim uma postura prepotente (por se achar superior!) e racista. Ou esse alguém assume essa postura racista (ou xenofóbica, homofóbica…) e tenta impor sua verdade abstrata por medo do que não conhece, do contato com algo novo/diferente, de algo que pode mexer com suas convicções e com seu conforto. Esse perigo existe para todas nossas verdades abstratas, tanto faz qual o contexto.

E termino, dizendo mais uma vez: a verdade existe, tanto a concreta como a abstrata. Nossas verdades abstratas podem ser perigosas, mas estão aí e fazem parte de nós. Portanto, o caminho não é rejeitá-las ou negá-las e fazer de conta que não existem, mas sim aceitá-las, diferenciando-as, porém, das verdades concretas, reconhecendo sua subjetividade e sabendo que podem estar parcialmente ou totalmente erradas. E, após aceitá-las, aceite que os outros à sua volta também têm suas verdades abstratas, mesmo que não concorde com elas. Isso é importante, pois as verdades abstratas dos outros podem nos levar a refletir e questionar nossas próprias, confirmando-as ou mesmo corrigindo-as. Quando entendemos finalmente que nossas verdades subjetivas são relativas e nunca absolutas e nos abrimos para as verdades do outro, temos a chance de aprender e crescer. Aceite que a casa pode ser, ao mesmo tempo, feia (para você) e bonita (para o outro) e que ambas as verdades podem existir paralelamente e não haverá briga. Aceitar que o outro também tem suas próprias verdades (e pode ter razão!) e não tentar convencê-lo de que nossa própria verdade é mais verdadeira que a sua nos traz a chance de viver uma vida com bem menos conflitos. Não é verdade? 😉

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Sobre Gustl Rosenkranz 134 Artigos
Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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