O migrante azedo




Sobre uma mentalidade de alguns brasileiros na Alemanha de reclamar constantemente da vida, culpando outros por seu malogro e sem reconhecer a própria responsabilidade


Depois de publicar meu último artigo sobre casamentos por conveniência para a obtenção de visto, me vi confrontado mais de uma vez com a suposição de que a Alemanha praticamente incentiva essa prática, já que ela não oferece ao imigrante outras chances legais para poder ficar aqui de forma permanente, exceto para quem tem muito dinheiro. Porém, isso não é verdade! É só uma “verdade” de gente “azeda” que gosta de reclamar e torcer as coisas da forma que acha conveniente. E foi isso que me levou a escrever este texto, que com certeza não agradará a alguns.

Qualquer brasileiro pode vir para a Alemanha para aprender o idioma alemão, o que é importantíssimo para quem quer viver aqui. E essa é a primeira possibilidade e o primeiro passo para muitos, que tem sido utilizado por muitos brasileiros que vêm para cá. É claro que um visto para aprender idioma tem suas restrições, não permite trabalhar e a pessoa tem que comprovar que poderá se manter aqui durante os estudos, o que não é fácil para alguns, mas que não é impossível! Aí vem alguém e reclama que isso não é justo para quem tem pouco dinheiro para pagar curso, aluguel, seguro de saúde e outras despesas, mas aí pergunto: o que essas pessoas querem? Vir para cá e viver às custas de quem? Do Estado? Aqui cada um tem que buscar sua solução, economizando o dinheiro antes no Brasil, deixando talvez de tomar tantas cervejas nos fins de semana, abrindo mão de algumas coisas ou se virando de alguma outra forma. O que não se pode é esperar que os contribuintes na Alemanha, aqueles que trabalham e pagam impostos, terminem cobrindo os custos do SEU projeto de emigração.

Se alguém já fala alemão e fez no Brasil uma faculdade ou concluiu pelo menos o nível médio, pode então estudar em uma universidade aqui. É claro que também essa possibilidade tem suas limitações, não também permitindo trabalhar (estudantes universitários estrangeiros podem trabalhar oficialmente apenas dois meses por ano). Para quem só tem o nível médio, é necessário visitar um ano de “Studienkolleg” e fazer no final uma prova para comprovar que está apto para cursar a faculdade. Você acha isso injusto? Injusto nada, isso é uma benção, pois é um ano para sua adaptação e para você adequar seu nível médio ao nível médio alemão, e lembro que o nível de aprendizado no Brasil é bem mais baixo que aqui. Se alguém com nível médio brasileiro fosse jogado diretamente numa universidade daqui, ele sofreria um choque tremendo, correndo o risco de fracassar. É claro que você então tem o direito de achar que assim “perderá um ano”, mas seria mais esperto entender que você “ganhará um ano” e uma chance de aclimatização, antes de pular na água fria. Na vida, tudo é uma questão de ponto de vista. E aqui sai ganhando quem tem uma visão positiva da coisa.

Se você já tem um curso superior e já sabe alemão, você pode, como já dito, entrar diretamente na universidade. Ah, você acha um absurdo ter que estudar de novo? Esse é um direito seu! Mas então não diga que a chance não existe!

É possível também vir por algum programa de intercâmbio acadêmico, onde então seu curso é reconhecido e você pode fazer sua pós-graduação. Sim, não é fácil assim conseguir entrar nesses programas, mas aponto aqui mais uma possibilidade.

Depois de saber bem o idioma, é possível também aprender uma profissão em escolas profissionalizantes, sem precisar necessariamente cursar uma universidade.

Se você concluiu, por exemplo, um curso de informática, engenharia ou na área de saúde no Brasil e fala alemão, é possível entrar em contato com empresas alemães e conseguir um emprego. Assim, com o contrato de trabalho assinado, seu visto é praticamente certo.

Ah, você agora está achando ruim porque para tudo tem que saber alemão? O que é que você quer então? Vir para cá falando o quê? Sim, na Alemanha se fala ALEMÃO, não inglês, iorubá, espanhol e muito menos tupi ou português.

Uma vez aqui de forma legal, você pode ir levando, estudando e/ou trabalhando, de acordo com seus vistos e possiblidades. Depois de cinco anos, vivendo aqui de forma legal e honesta e provando então que pode se manter (lembre-se: você tem cinco anos para atingir isso, o que não é pouco tempo!), você tem então o direito de viver aqui de forma permanente. Isso pode ser difícil, claro, principalmente quando o dinheiro é escasso para financiar a vida nesse tempo. Sim, pode ser difícil, mas muitos conseguem, como mostra esta história que vou contar a seguir:

Um amigo brasileiro, de Recife, chegou aqui como estudante, com o dinheiro para financiar o início de sua estadia. Aprendeu alemão e fazia bicos informais para se manter. Depois foi para a universidade, se esforçou, trabalhava na própria universidade como HiWi (wissenschaftliche Hilfskraft), continuou fazendo seus bicos e procurava um emprego para os dois meses por ano que ele podia trabalhar oficialmente, guardando o dinheiro para ajudar no financiamento de sua vida no resto do ano. E, entre uma coisa e outra, ele fazia de tudo, até mesmo ir para a porta de estádios quando tinha algum show, catando garrafas com depósito para entregar e receber o dinheiro, já que sabia que as pessoas não podiam entrar com as garrafas no estádio – ele então esperava o povo entrar e jogar as garrafas fora – sei que é verdade porque um dia fui junto para ajudá-lo). Até tomar conta de crianças ele tomava e limpava casas. E quando a coisa apertava, ele pedia ajuda a amigos, que o ajudavam com prazer, pois sabiam que ele era correto e retribuía de alguma forma. Assim, terminou os estudos de informática e trabalha hoje numa grande companhia telefônica aqui na Alemanha, sem precisar casar para isso (ele até casou depois com uma mulher que não é alemã, uma dentista que se formou aqui da mesma forma que ele!). 

O que quero dizer com isso: é duro, tem que ralar, mas é possível ficar por aqui sem precisar se casar. E se outros conseguem, porque é que você não irá conseguir?

O problema é que há quem queira uma solução rápida e fácil. Vejo gente por aqui que só reclama, não se esforça realmente para aprender o idioma, não tem o peito ou se acha muito bonito para aceitar certos trabalhos e quer que tudo seja simples, de mão beijada. Mas atenção: não estou generalizando! Sei que cada caso é um caso. Só acho que buscar sempre o caminho aparentemente mais fácil por pura conveniência (para não dizer comodismo/preguiça) enfraquece o caráter e não seria o caminho para mim. Não gosto de falar de minha vida na internet, mas, quando cheguei à Alemanha, no primeiro ano, fiz três cursos de alemão paralelos, cortei todo e qualquer contato com brasileiros ou portugueses para me obrigar a falar o idioma local e, no final desse ano, já sabia falar o suficiente para trabalhar. E que ninguém ache que eu tinha dinheiro sobrando. Um dos cursos de alemão era intensivo, todos os dias, durante toda a tarde. Era um curso gratuito para refugiados de guerra oferecido pela igreja metodista. Como eu não era refugiado, não tinha direito de participar, mas fui à igreja, falei com a professora, explicando minha situação e ela permitiu que eu tomasse parte das aulas inoficialmente. E para completar: entre uma coisa, eu limpei e arrumei porões, quebrei até paredes e não recusava qualquer chance de ganhar algum dinheiro honestamente. E mais uma coisa: na época, a Alemanha era mais severa e oferecia a estrangeiros bem menos chances do que oferece hoje.

O que quero dizer é o seguinte: quem quer comer pão com manteiga tem que ter pelo menos a coragem de passar a manteiga no pão e não esperar que alguém passe por ele. E isso vale para a vida em qualquer lugar!

Mas o que é que observo entre brasileiros aqui? Muitos são corajosos, têm os pés no chão, correm atrás e batalham. Mas já outros são “azedos”, só reclamam, lamentam… Não entendo quando vejo gente que acaba de chegar na Alemanha e que vai então para um grupo no Facebook para dizer “CHEGUEI!” e perguntar onde é que vai rolar a próxima festa ou afins. Acho que todo ser humano precisa de se divertir e isso é natural, mas essa não deveria ser a principal preocupação de quem acaba de chegar! Quem quer atingir alguma coisa, tem que estar disposto a apertar o cinto por um tempo e dedicar-se ao lado sério da vida. E depois vejo as mesmas pessoas reclamando da Alemanha e dos alemães e se achando vítimas da vida, sem perceber que são vítimas de si mesmas. E aí aparece um espertinho que diz “case-se que tudo se resolve”? Casar como? Enrolando algum alemão ou alemã, fingindo que ama? Ou pagando para isso? E ainda supondo que é a Alemanha que é culpada por não dar outras chances? Ué, mas como é que tem gente que consegue? Questão de sorte e beleza é que sei que não é!

Gente, uma coisa deveria estar clara: qualquer brasileiro que vem (ou já veio) para cá tem que ter consciência de que ele está vindo (ou veio) porque quis, não tendo sido obrigado por ninguém. E mudar de país é dar um passo ousado, que tem suas consequências, que tem seus empecilhos. Que ninguém venha achando que vai ser tudo fácil, pois não vai ser! Quem toma essa decisão tem que estar disposto a correr atrás, a se virar de todas as formas possíveis e até mesmo impossíveis, ter paciência e perseverança e não se achar muito “bonito” ou “bonita” para pegar no batente, seja de que forma for. Sei que é duro ter feito faculdade no Brasil e terminar tendo que fazer faxinas para sobreviver aqui no início, mas isso lá tira pedaço de ninguém? E, se tira pedaço seu, então fique no Brasil. Enfim, penso que viver na realidade é bem melhor. Portanto, seja realista, aceite que as coisas são como são, que na vida não existem caminhos sem pedras e nunca coloque a culpa de seus problemas nos outros, nem nos alemães, nem na Alemanha, nem em ninguém!

Bom, sinto muito pelo tom um pouco áspero deste texto, diferente de como normalmente escrevo. Veja isso simplesmente como um desabafo, pois tem horas que certas coisas entalam na garganta e têm que ser ditas. E nem sempre dá para dizer essas coisas em tom mansinho… 😉

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Sobre Gustl Rosenkranz 134 Artigos
Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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