Gustl Rosenkranz
A agonia política que o Brasil atravessa pode ser uma chance de mudança
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A agonia política que o Brasil atravessa pode ser uma chance de mudança

O momento é difícil, mas toda essa agonia política pode também ser uma chance de renovação. Se ela acontecerá ou não, depende de nós, o Povo Brasileiro, que temos em nossas mãos o destino que queremos dar ao Brasil.


Acompanhando as discussões sobre a situação no Brasil, registro uma agonia política com efeitos colaterais para toda a sociedade.

O Brasil está dividido, não só em dois grupos, esquerda e direita, mas em muitos, cada um tentando puxar a sardinha para sua rede. Uns defendem o PT com grande entusiasmo e até com agressividade, atacando qualquer um que ouse criticar Lula, Dilma ou o partido. Já outros fazem exatamente o contrário, atacando qualquer um que mostre qualquer simpatia por Lula, Dilma ou pelo PT.

É tanta argumentação estranha, gente misturando tudo, torcendo a história, invertendo fatos, uns por ruindade mesmo, outros por alienação e manipulação.

Tem um grupo que assusta muito quando aparece balançando a bandeira do tal de Bolsonaro, um populista que dissemina ódio e que tem muita sede de poder, que diz que o Brasil não precisa do Poder Legislativo e que basta abrir a boca para que saiam palavras grosseiras, perversas e muito desrespeito pela dignidade humana. Seus adeptos parecem concordar com suas declarações homofóbicas, racistas, sexistas e sua idolatria pela violência.

Uns gritam pela volta da ditadura militar, como se soubessem realmente o que isso significaria.

Para bagunçar mais ainda, tem gente tentando substituir a Constituição pela Bíblia, religião se intrometendo na política, pastores espertos que sabem bem mover massas para atingir seus objetivos. Tem até nazistas se aproveitando da chegada de refugiados (no próprio Brasil e na Europa) para espalhar sua propaganda e sua maldade.

E o pior de tudo: falta uma maior independência da mídia, para que informe sem manipular. A imprensa no Brasil não anda muito livre e grandes jornais e revistas assustam com uma clara parcialidade, sem falar da Rede Globo, que continua “educando” via telenovelas e Domingão do Faustão.

Nem sabemos mais direito em quem podemos acreditar, já que cada um só conta as verdades e mais ainda as mentiras que lhe convêm.

Todos os dias tem pelo menos uma notícia ruim, mais uma catástrofe, mais mortes, mais assaltos, intervenção militar, mais alguém preso ou sendo investigado, mais casos de corrupção, mais escândalos, mais desilusão com a classe política, com a sociedade, com tudo…

Agora mesmo estamos ainda chocados com o assassinato de Marielle Franco e mais ainda com a reação de certas pessoas, que aprovam abertamente essa brutalidade primitiva.

A hostilidade é grande. Os grupos militantes ficam de birra, tentando devorar uns aos outros, enquanto a maioria fica só de olho (aberto ou fechado), sem saber direito como se posicionar, em quem confiar, o que fazer.

Olhamos para prateleira política do país e pensamos: é tudo farinha do mesmo saco! E é mesmo, é farinha de um saco só, e a qualidade da farinha não é lá essas coisas. E sabemos que estamos entregues a essa farofa, reféns de uma classe política contaminada por desonestidade, corrupção e (!) incompetência.

Pagamos caro por muito pouco e mesmo assim aceitamos tudo isso numa passividade assustadora ou partimos para a irracionalidade, brigando uns com os outros em bate-bocas histéricos na internet, com uma suposta esquerda atacando uma suposta direita e vice-versa, mas ambos os lados só querendo impor sua vontade, aquilo que é vantajoso (seja lá qual a vantagem!) para si e não para o Brasil como um todo.

Não precisamos de ideologias, precisamos de gente idealista, que saiba lutar por uma causa e não somente pelos próprios interesses.

No fundo, todos queremos a mesma coisa: um Brasil melhor! E todos nós sabemos que muita coisa tem que mudar. Mas não sabemos bem como. Às vezes, até que sabemos, mas então percebemos rapidamente que queremos mudanças, mas não queremos mudar.

Se queremos um Brasil diferente, precisamos entender que a responsabilidade é nossa, de nós todos, o Povo Brasileiro, sem exceção. A situação chegou ao ponto que chegou por causa de nossas escolhas no passado. E as escolhas que fizermos agora influenciarão nosso futuro.

Não concordo quando se culpa somente os governos de Temer, do PT, de FHC, ou mesmo dos três, pois nossos problemas atuais já começaram bem antes e eles talvez já nos acompanham por toda nossa história. Acho que o Brasil passou muito tempo embriagado, distraído no delírio de que bastaria ser bonito por natureza para que tudo desse certo. Enquanto isso, muita coisa foi acontecendo e formando essa bagunça que temos hoje.

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

– Chico Buarque –

Mas deveríamos agora é olhar para frente, arrumando o presente para um futuro melhor, e, para isso, precisamos de uma renovação política, de nova gente, de uma nova mentalidade, gente honesta, gente do bem, que tenha a coragem de praticar uma outra política, uma política para todos. Já há bons exemplos, até de prefeito colocando a mão na massa, cuidando das áreas verdes nos finais de semana em mutirão para economizar o dinheiro público que antes ia parar nos cofres de empresas.

Precisamos é ter coragem para começar de novo, refazendo algo que até agora só deu errado, repensando a política brasileira. Mas precisamos compreender também que o Brasil só mudará se o povo brasileiro tiver a coragem de mudar também, sendo mais sensato em suas escolhas, entendendo que é melhor apostar no bem-estar de todos a longo prazo do que em vantagens pessoais imediatas, e precisamos rever nossas prioridades e assumir uma maior responsabilidade pelo que é comum, precisamos de um maior senso de comunidade e civilidade.

Uma renovação política só será possível se houver uma outra postura política do próprio povo, já que é ele que tem que cuidar para que a imprensa seja livre, é ele que determina que tipo de polícia que quer nas ruas, é ele que tem que saber em que país quer viver. E ele decide isso quando vota, mas também quando vai às ruas, quando protesta (pacificamente!), quando se manifesta politicamente de qualquer forma ou mesmo quando se cala e consente.

Vamos perceber que essas mudanças começaram no dia que um eleitor for procurar um amigo que foi eleito vereador (ou prefeito, ou deputado, ou governador…) para cobrar as promessas feitas e não para pedir um favor pessoal. Ou quando passarmos a gastar nosso tempo não apenas se distraindo na internet ou na frente da TV, mas também para buscar informações, boas leituras, novos conhecimentos, coisas que nos ajudam a entender pelo menos um pouco melhor a situação complexa que nos cerca, a refletir e diferenciar, nos tornando assim mais independentes  e mais competentes na formação de nossa própria opinião.

Acredito que uma sociedade só pode funcionar bem se seus integrantes forem pessoas livres. E essa liberdade só existe se houver paz social, que se conquista através de diálogo, de correção de injustiças e de um senso comum de que o bem de todos é mais importante que interesses pessoais ou dos grupos que se representa.

Essa liberdade conquistamos através da consciência que ganhamos através de conhecimentos que recebemos, não somente, mas principalmente através de uma boa educação. E é nela que precisamos investir com urgência, pois é óbvio que certos desvios que estamos vendo hoje só são possíveis porque negligenciamos (e muito!) a educação no passado.

Penso que cada um de nós pode fazer sua parte, se informando, entendendo o contexto, pensando com a própria cabeça, ao invés de correr cegamente (mas acreditando enxergar) atrás de qualquer rebanho, seja ele de esquerda ou de direita ou de qualquer outro canto.

A agonia política que o Brasil vive hoje pode ser uma chance de finalmente promovermos as mudanças que queremos. Mas se queremos mudanças, temos que ter a coragem de mudar. E, se precisamos de novas opções, basta entender que somos nós mesmos que as criamos.

Créditos:
Imagem de capa: Romerito Pontes / flickr (CC BY 2.0)

 

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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