Quando o arcaico se apossa do moderno…




Parece-me que um dos grandes problemas que enfrentamos na atualidade é nosso desenvolvimento desproporcional: ao mesmo tempo que ocorreu um disparo no aspecto técnico, capengamos na evolução do aspecto humano. Então, enquanto somos modernos e avançamos na tecnologia ao ponto de mandar gente para o espaço e construir equipamentos cada vez mais eficazes, computadores extremamente rápidos e próteses que funcionam quase tão bem como os órgãos de nossos corpos, nosso lado humano parece ter ficado entalado na idade das pedras. E essa defasagem entre a tecnologia que desenvolvemos e nosso crescimento como seres humanos tem suas consequências, e essas consequências são sérias, muito sérias.

Agimos então ainda como trogloditas, seres arcaicos, violentos, e, mesmo após centenas de milhares de anos, continuamos a nos comunicar com agressividade, xingando e insultando, insistindo em resolver nossos problemas com guerras e terror e massacrando uns aos outros como no tempo em que vivíamos em cavernas. A diferença é que agimos hoje como trogloditas “modernos”, selvagens computadorizados, truculentos on-line, primitivos com porrete eletrônico na mão.

Hoje nos comunicamos mais rápido, mas será nos comunicamos também melhor? Claramente não! A única diferença em nossa comunicação é que antigamente precisávamos sair de casa e ir até o vizinho para contar ou escutar a última fofoca ou para espalhar o mais novo boato, enquanto que hoje basta sentar-se no computador ou tirar o smartphone do bolso para fofocar ou espalhar mentiras por todo o globo.

Mas não somente os fofoqueiros de plantão utilizam as mais novas tecnologias para espalhar seus fuxicos. A coisa é bem mais grave: governos promovem guerras cibernéticas, empresas espionam umas às outras à distância, terroristas organizam-se pela internet, racistas também a usam para disseminar seu discurso de ódio, bullying virtual virou uma arma moderna de intimidação, nem mesmo ladrão precisa mais sair de casa para saquear sua conta bancária ou lesar seu cartão de crédito.

O homem se desenvolveu tecnologicamente, mas não cresceu em sua humanidade. O resultado disso é um primitivismo moderno, com toda a maldade e todos os sentimentos obscuros que carregamos em nós se espalhando por aí como fogo em uma floresta seca.

Mas não estou criticando o avanço tecnológico, pois ele é bom, muito bom até. Não é aqui que está o problema, mas sim no atraso do lado humano. Penso que não precisamos de menos engenharia, mas sim de mais filosofia, não precisamos de menos informática, mas de mais reflexão, não precisamos de menos técnica, mas de mais coração.

A tecnologia pode ser uma benção, mas somente nas mãos de seres humanos maduros, evoluídos. Mas ela é um perigo quando usada por gente mesquinha, limitada, egoísta, que se acha superior, que se acha na razão, que quer impor sua vontade, que não respeita o próximo, que exige sua liberdade sem aceitar que o outro é igualmente livre.

Se queremos melhorar este mundo, precisamos urgentemente melhorar a nós mesmos, corrigindo esse atraso em nossa evolução. E aqui só há um caminho: reeducarmos, recriarmos a nós mesmos, aprendendo e ensinando a pensar, a refletir, a sentir e a amar verdadeiramente. Sem isso, todo nosso avanço tecnológico continuará a ser, infelizmente, somente mais uma arma que, apossada pelo arcaico, só servirá para destruir mais um pouco o que ainda temos de humanidade dentro de nós.

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Sobre Gustl Rosenkranz 134 Artigos
Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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