Gustl Rosenkranz
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Quando o excesso bloqueia…

Porque no momento não consigo escrever


Gosto de escrever, mais até: preciso escrever. A escrita não é para mim um hobby, não a vejo como profissão e não é algo do que possa abrir mão. A escrita é para mim uma necessidade! E normalmente posso sempre escrever, já que raramente me falta inspiração.

Mas agora, não posso, não consigo, nada sai, não por falta de inspiração, muito menos por falta de temas, na verdade é o contrário: é o excesso que me bloqueia. Vejo tantas coisas, escuto muitas outras e sinto ainda muito mais, mas percebo em excesso e, “excedido”, não saberia por onde começar…

Seria emergente escrever sobre a crise dos refugiados no mundo, mas, quando penso no assunto, percebo que ele não tem fim, pois não poderia tratá-lo e ignorar tanta maldade que tenho visto por aí, racismo, xenofobia, mesquinhez e corações apertados, gente perversa, cristãos que rejeitam muçulmanos só por serem muçulmanos, nada mais, discursos de ódio, mas também medo e insegurança nas pessoas. Como escrever sobre essa migração, mas não tratar do mal escondido por trás de tudo isso, o mal da ganância de países,  povos e empresas, que promovem conflitos para dividir, enriquecer-se e vender armas, e do mal de quem supõe ser superior a outros seres humanos por ter essa ou aquela cor de pele, essa ou aquela origem, esse ou aquele saldo no banco ou por pura prepotência, mesmo sem realmente ter algo a somar? Ou como não falar do mal da indiferença de quem acha que os problemas do mundo não são também seus, que o sofrimento alheio não lhe diz respeito, que tudo isso que acontece deveria ficar bem longe para não atrapalhar seu conforto, seu consumo, seu divertimento cotidiano? Não, não consigo escrever sobre isso porque é muito assunto para uma cabeça, é muita emoção que vem à tona, é muita reviravolta para uma só alma. Assim, não escrevo sobre os refugiados, pois não poderia deixar de escrever também sobre outros imigrantes por aqui, sobre os brasileiros, meus compatriotas, que largaram o Brasil e vivem em terra alheia, mas trouxeram na mochila coisas que não deveriam nem ter deixado em casa, mas sim enterrado, destruído ou trancafiado nas trevas, coisas más, sentimentos pequenos e absurdos, preconceitos sem fim, limitação de espírito. Seria emergente escrever sobre isso, mas eu teria que ir a fundo, pois a coisa assusta, me assusta tanto, entretanto, que perco as palavras, sempre que tento expressá-las. Como ir a fundo se a coisa não tem fundo, se quanto mais mexo, mais profundidade aparece?

Assim não escrevo, pois, se tentasse abordar essas coisas que muitos brasileiros levam na mochila quando vão para o exterior, teria que abordar também os armários cheios das mesmas coisas que se tem no Brasil, teria que refletir sobre a hostilidade e o ódio de muitos, numa sociedade que se desmantela, teria que escrever também sobre uma classe política que se esqueceu de qualquer decoro e teria que falar de uma violência que mata nas ruas e dentro de casa, de machismo, homofobia e fanatismo ideológico e religioso, de pedofilia, dos militantes que discriminam para combater discriminação, da perda de moral e ética, da falta de respeito, amor e compaixão e de uma tensão social que pode explodir a qualquer momento como um barril de pólvora. Vejo tanta coisa torta no Brasil que se entortam minhas frases, já que não sei onde começar, e também não sei se seria possível terminar. Assim, não escrevo também sobre isso.

Poderia escrever sobre meus encontros, mas também aqui não consigo, já que teria que entrar em questões sem fim e dissertar sobre relacionamentos humanos complicados, muitas vezes altamente perturbados e não imediatamente compreensíveis, como aquela mulher que nem conheço, fora de uma ou outra interação virtual, mas que agora me persegue, me escrevendo mensagens, me acusando disso ou daquilo, sem que eu nem mesmo entenda porque, quer dizer, na verdade até que entendo, mas escrever sobre isso significaria questionar uma certa postura em relações, expectativas desviadas e até mesmo delírios capazes de levar alguém a buscar uma compensação de suas frustações em uma pessoa que praticamente não conhece e de levar à loucura de projetar em outras pessoas aquilo que é unicamente de sua responsabilidade. Também aqui a coisa é complexa e, transbordado pelo excesso, não consigo escrever.

Pensei em abstrair e escrever sobre coisas distantes. Talvez sobre o planeta Marte? Mas também aqui não posso, pois Marte, mesmo tão longe, me reflete de volta à Terra, já que me faz questionar o que buscamos por lá se nem mesmo conseguimos resolver nossa vida por aqui e já que não entendo para que encontrar água em Marte se na Terra tem gente sem água limpa para beber. Então percebo que sobre Marte também não posso escrever. Poderia tentar abstrair ainda mais, mas terminaria na metafísica e eu não pararia de questionar a relação entre as coisas, já que elas estão sempre estreitamente relacionadas, hoje bem mais do que nunca.

Assim não escrevo, bloqueado por esse excesso, mesmo que a vontade não passe. E como a vontade de escrever não passa, penso que poderia escrever então sobre coisas de menor importância, como meu café da manhã, o diâmetro de meu umbigo ou o macaco que vi batendo palmas na televisão, mas como escrever sobre isso sem me questionar nesse papel e me envergonhar por ceder, de optar pela superficialidade devido à minha própria incapacidade de domar uma profundidade que não tem fundo, esse excesso de informações e impressões, e por ver tantas coisas e constatar que não consigo reconhecer no momento onde devo focar minha atenção?

Admito minha limitação diante de tudo isso e muito mais. Precisaria escrever, pois é uma necessidade minha (talvez um defeito?), mas como escrever se esse excesso me bloqueia? Não vejo jeito: como não consigo, apesar dessa vital necessidade, desisto, pelo menos pelo momento, e nada escreverei.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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