Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

Uma relação entre pessoas de países diferentes tem suas dificuldades especiais, como as discordâncias culturais e de mentalidade, o idioma, a dependência que o parceiro que mudou de país tem que suportar no início e outras mil “coisinhas” que tornam esse tipo de encontro um caminho um pouco mais pedregoso do que em uma relação entre conterrâneos. Como tudo isso não bastasse, podem surgir problemas com a família do parceiro(a), algo ainda mais difícil de superar quando se vive em outro país, longe da própria família e dos amigos. Abordo aqui esses problemas, focalizando as relações de noras e genros brasileiros com seus sogros alemães, já que vivo na Alemanha e prefiro falar daquilo que conheço melhor. Mas acredito que as coisas não sejam muitos diferentes em outros países europeus.

Quero começar com uma boa notícia: a maior parte dos brasileiros que têm uma relação com um alemão ou uma alemã se entende bem com os sogros e com o resto da família. Em geral, os alemães adoram o Brasil e os brasileiros, e normalmente somos bem recebidos por aqui. Eu mesmo vim para cá por causa de minha namorada e fui muito bem recebido pelos pais dela, bem recebido não, muito mais do que isso: eles me acolheram como se eu fosse um filho. Eu tinha toda a liberdade na casa, saia e entrava quando queria, batia papos legais com eles (dentro dos limites idiomáticos, já que na época meu alemão ainda não era muito bom) e me sentia já de início como membro da família. É claro que surgia uma ou outra dificuldade de vez em quando, normalmente devido às diferenças culturais, algo mais que compreensível, mas posso dizer que fui sim bem acolhido e aceito por eles. Sabemos, todavia, que nem sempre é assim. Tive problemas, por exemplo, com a avó de minha namorada, uma verdadeira matriarca que ficou toda preocupada quando escutou que a neta estava namorando um brasileiro e só vivia repetindo que isso não poderia dar certo. Quando chegou o Natal, foi toda a família visitá-la, eu junto. Eu a veria pela primeira vez! Sentado no banco de trás do carro, eu sentia a tensão no ar. Todos estavam apreensivos por não saber como a vovó me trataria. Nessas horas, costumo ficar tranquilo e deixar as coisas acontecerem. E as coisas aconteceram assim:

Chegamos à casa dos avós, que viviam em uma pequena cidade próxima a Aachen. Fomos recebidos na porta, ambos me cumprimentaram cordialmente, mas com certa formalidade. Entramos, sentamos, a conversa rolou e, a certo momento, a avó começou a me bombardear com perguntas sobre minha vida, minha família, se éramos católicos, se eu ia para a igreja, se eu era honesto, esforçado, etc., etc., etc. Continuei tranquilo, respondi todas as perguntas com paciência, ela ficou surpresa com o fato de eu já falar um pouco de alemão, depois começou a me contar da vida dela e me mostrar fotos da família. No final da história, nos entendemos muito bem e tivemos uma boa relação até seu falecimento há alguns anos atrás.

Eu contei a história da avó de minha namorada por um motivo muito simples: porque acredito que muitos conflitos na família têm sua origem em uma má comunicação e um baixo nível de tolerância entre as partes envolvidas. Em alemão se costuma dizer uma frase que me agrada muito: der Klügere gibt nach! (= o mais inteligente cede!). E foi exatamente isso que fiz com a avó, não buscando a confrontação, não a acusando de nada, simplesmente aceitando que eu estava ali de visita em sua casa e enxergando aquela senhora severa, mas de bom coração, que estava preocupada com a neta, ela que quase não tivera contato com estrangeiros até então, tinha medo, não medo de mim, mas medo do que ela não conhecia. Achei grosso da parte dela me encher de perguntas daquela forma, assim na frente de todos, mas entendi que ela fez de propósito. Ela quis ver como seria minha reação, meu comportamento. Eu poderia ter ficado zangado e dado uma resposta mal educada ou ter levantado e saído da sala, mas eu não conquistaria nada com nenhuma dessas duas atitudes. Preferi ficar, reagir calmo e me comportar bem, respeitando uma senhora de idade, seus medos e suas manias, e respondendo as perguntas dela, acalmando-a e tirando seu receio diante do desconhecido. Com o passar do tempo, ela entendeu que o brasileiro é diferente do alemão (em muitos pontos ela até terminou achando que o Brasil era melhor!), mas que não era perigoso.

Agora você poderia me dizer que avós e sogros não são a mesma coisa e eu concordaria, mas não é essa a questão. A questão é reconhecer que quando duas pessoas de países diferentes se encontram, se apaixonam e resolvem viver juntos, elas são acompanhadas no início dessa relação por uma nuvem de “choque cultural” para os dois lados, e tanto faz em qual dos dois países eles resolvem viver. E esse choque cultural é difícil para todo mundo, para o casal, para os sogros e também para o restante da família. Por isso é importante assumir uma postura serena e tolerante, buscando o diálogo e dando o tempo necessário para que todos se conheçam e as coisas se encaixem aos poucos.

Bom, mas agora a má notícia: sogros e sogras, e principalmente as sogras, são iguais em qualquer lugar. Ou você tem a sorte de ter uma sogra boa, dócil, que quer a felicidade do(a) filho(a) e que faz de tudo para ajudar, mas deixando o casal em paz em sua relação, ou ela é uma jararaca, uma cobra venenosa, que faz de tudo para atrapalhar.

A nora e o veneno da sogra

Como dito, sogras são sogras em qualquer lugar. E sogras às vezes não são brincadeira. As “problemáticas” costumam atrapalhar as relações dos filhos por motivos diversos, uns mais, outros menos compreensíveis: medo de “perder o filho” (medo da solidão), insegurança (medo de não saber lidar com a situação), mas também pura vontade de dominar, egoísmo, maldade mesmo. Mas acredite: uma sogra má não vai fazer diferença se a nora vem de outro país ou não. Os critérios dela são outros: ela combate qualquer mulher que apareça do lado do filho e ela vai combater cada uma com as armas que ela tiver em mãos. No caso de uma brasileira, ela pode terminar usando armas baixas, discriminatórias, talvez até racistas, mas sempre tentando mostrar que ela é mais forte. Um comportamento típico dessas jararacas é falar com a nora brasileira como se ela fosse uma criança, pior ainda, uma retardada mental, algo extremamente perverso e humilhante. Aqui vejo três caminhos possíveis:

1- Nenhuma das duas cede e a “briga” dura uma vida inteira;
2- A nora se mostra mais fraca, abaixa a cabeça, faz as vontades da sogra, tolera suas provocações e nunca diz nada, seguindo sofrendo, o que satisfaria a vontade de dominar da cascavel;
3- A sogra percebe que a nora é mais forte, que teve uma conversa séria com o parceiro e que deixou claro que sogra nenhuma tem o direito de se intrometer na relação dela.

Se eu fosse mulher e tivesse uma sogra ruim assim, eu optaria pelo número 3 😉 Aqui é importante que o namorado/noivo/marido assuma uma postura clara, mostrando à mãe que ele já é um homem adulto e que ela tem que respeitar sua escolha. E se ela não entende isso e não respeita a nora, é com ele que se deve brigar, exigindo o respeito merecido. Normalmente, problemas de nora com a sogra têm sua causa no parceiro, que, por medo, cuidado excessivo ou seja lá por qual motivo, permite que a mãe passe de limites, se intrometa na relação e termine hostilizando a nora. E aqui repito: é com ele que a nora deve brigar, exigindo que se comporte da forma que deve se comportar um homem que acha que tem idade suficiente para manter uma relação: de uma forma adulta, mostrando à mãe qual seu lugar.

Veneno de sogro não é menos venenoso

Seria errado crer que só as sogras cospem veneno. Muitos sogros também maltratam, se intrometem e hostilizam a nora ou principalmente o genro. Aqui também se pode ter sorte, com um sogro simpático, que aceita a escolha do filho ou da filha, mas também se pode ter azar. Alguns sogros costumam ver os genros como concorrentes e fazem questão de frisar que ele é mais homem, que é ele que manda, etc. Também aqui pode ocorrer do sogro recorrer a armas baixas, discriminando e fazendo comentários preconceituosos sobre o(a) parceiro(a) que vem do Brasil. E novamente vale: mostre os limites, exija respeito e não permita que haja qualquer intromissão.

Não aceite racismo, mas também não confunda ignorância com discriminação

É fato que existem sogros alemães racistas, que rejeitam um brasileiro ou uma brasileira por causa da cor da pele ou por ser simplesmente de outro país. Eles maltratam, fazem comentários sobre a cultura e os costumes da pessoa e insinuam, por exemplo, que os netos vão sofrer se nascerem com a cor de pele “errada”. Não aceite isso! Corte tal tipo de coisa e, se necessário, corte até mesmo o contato com eles. Ninguém tem o direito de tratar ninguém mal por racismo ou por qualquer outro tipo de preconceito. Sim, soa duro, mas eu jamais deixaria filho meu ter contato com avós racistas. Eu deixaria claro: ou para com isso ou não quero nenhuma aproximação, nem comigo, nem com filhos meus.

Isso está claro: racismo não pode ser aceito. Mas tenha cuidado para não ser sensível demais e achar que qualquer comportamento ou comentário estranho dos sogros tem a ver com racismo. Muitas vezes é pura ignorância. Muitos alemães, principalmente os mais idosos, têm simplesmente uma ideia errada sobre outras culturas ou mesmo ideia alguma, fazendo perguntas bizarras do tipo “É verdade que no Brasil os índios andam nus por tudo quanto é canto?” ou “É mesmo que no Brasil há canibalismo?” ou coisa ainda pior. Acreditem: essas perguntas normalmente não têm qualquer maldade. É pura ignorância, falta de informação. Meu conselho aqui: leve na esportiva, reaja com humor e serenidade e explique como realmente é. Assim eles aprendem e ficam até gratos no final!

A questão da herança

Sabemos que quando se trata de herança e dinheiro em geral, as pessoas são capazes de se comportar de forma estranhíssima, pensando, falando e fazendo coisas abstrusas e desenvolvendo medos sem nexo e fundamento. Agora imagine um casal alemão idoso, que passou a vida trabalhando duro para deixar uma herança para os filhos. De repente, o filho ou a filha aparece com um namorado ou namorada de outro país e ainda dizendo que quer casar. Os pais entram em pânico, ficam imaginando a parentalha do estrangeiro vindo mais tarde bater na porta, querendo parte da herança… É claro que é um medo sem sentido, algo infundado, mas devemos lembrar: não há lógica quando o assunto é dinheiro! O caminho aqui é tirar o medo, mostrando que você é uma pessoa honesta e que nem você nem seus parentes têm qualquer interesse em ficar com a herança de ninguém. Normalmente, esse medo dos sogros avarentos vai passando com o tempo, à medida que eles vão percebendo que o genro/a nora é uma pessoa de bem.

Uma coisa muito comum é sogros desse tipo exigirem que o casal faça um pacto antenupcial, uma espécie de contrato de casamento, através do qual o parceiro estrangeiro abre mão de muitos direitos. Esse tipo de pacto pode até fazer sentido em um caso ou outro, mas aqui também vale: os sogros não têm o direito de exigir isso. Se o casal vai ou não assinar tal tipo de contrato é uma decisão única e exclusiva dos dois, não devendo os sogros se meter. Aliás, sogros não têm o direito de se meter em nada!

Quando o parceiro alemão não reage…

Algo muito difícil para um brasileiro ou uma brasileira numa relação binacional é quando os sogros interferem e atrapalham sem que o filho ou filha deles reaja. Isso é algo muito difícil para o parceiro de fora, que está aqui sozinho, sem sua própria família, que lhe dê pelo menos apoio moral. Às vezes, ele ou ela nem domina o idioma alemão direito, o que impede de reagir adequadamente. Nessas situações, é importante que o parceiro alemão assuma sua responsabilidade pelo bem-estar dos dois na relação, freando seus pais e não permitindo excessos. Caso você esteja passando por uma situação difícil com seus sogros sem que seu parceiro reaja, não aceite isso. Exija que ele (ou ela) tome uma postura clara a seu favor. E se ele (ou ela) não o fizer? Então me desculpe a franqueza: o que é que você quer com alguém assim?

Não subestime problemas…

Não subestime problemas com os sogros, leve-os a sério e tente resolvê-los o mais rápido possível. Como qualquer conflito familiar, esses problemas podem ir aumentando com o tempo, podendo tomar dimensões imprevisíveis e se tornar bem complicados. Mas por pior que seja a situação e por maior que seja o conflito, aposte sempre no diálogo, no entendimento mútuo e em uma postura tolerante e serena. Se você deu azar e se vê agora deparado com sogros difíceis e limitados, não seja também difícil e limitado. Se eles se comportam de uma forma imatura, seja maduro. Evite confrontações, evite brigas e deixe claro o que você quer: ser feliz com seu parceiro ou parceira, sem qualquer tipo de estresse com quem quer que seja!

Leia também:

Categoria: Coisas da Vida, Vida no exterior

IR PARA O TOPO
Razonite: uma enfermidade grave que está se espalhando pelo mundo