Relacionamentos binacionais e o sentimento de desigualdade e dependência




Relacionamentos binacionais e o sentimento de desigualdade e dependência

O sentimento de desigualdade e dependência

O relacionamento binacional tem mil facetas, é grande a diversidade, muitas são as possíveis constelações e, por isso, escrevo ciente de que o que aqui abordo não vale para todos os casais binacionais deste mundo, mas escrevo por acreditar que muitos desses casais conhecem muito bem situações e circunstâncias que podem causar um sentimento de desconforto, de desigualdade e de dependência, principalmente, mas não somente, no início da relação, quando o casal resolve viver junto e um dos dois tem de largar tudo para ir viver no país do outro.

O problema desse desconforto, desse sentimento de desigualdade e dependência é que ele é real. Exceto quando já se tenha vivido ou se viva no país do parceiro/da parceira, já entrando no relacionamento com uma vida independente, realmente existe essa desigualdade e há uma dependência, mas isso é normal, é praticamente inevitável e faz parte do caminho a ser percorrido por quem quer viver com alguém de outro país. Importante é saber lidar com esse sentimento, entendendo que é normal ser “desigual” ao chegar num país novo, onde se fala outro idioma, onde a cultura é outra, onde até o humor é diferente.  E também é normal que no início haja certa dependência, já que afinal de contas quem chega em outro país precisa de um tempo de aclimatização e, principalmente se não falar o idioma local, vai mesmo necessitar de ajuda, do parceiro/da parceira, de amigos, da família. E tudo isso pode causar muito desconforto, mas faz parte. Faz parte do caminho a ser percorrido por quem quer viver com alguém de outro país.

Mesmo fazendo parte, não significa que um sentimento de desigualdade e de dependência entre o casal não possa causar muito sofrimento, desentendimentos, desencontros. Essa fase é uma prova para qualquer relacionamento. E muitos não a sobrevivem. Por isso, depois de aceitar que essa desigualdade e essa dependência fazem parte, é necessário entender a importância de cuidar bem de nossas emoções nesse período e ter consciência de que, em primeira linha, é própria pessoa que é responsável por sua integração e que é ela que tem de fazer de tudo para construir sua própria vida, nivelando as desigualdades e terminando a dependência que é comum no início. Mas é claro que também é importante que o parceiro/a parceira esteja disposto a ajudar e que essa ajuda seja aceita.

É muito importante como o casal lida com essa situação

Ao resolver viver junto em um dos dois países, é essencial que o casal tenha consciência da situação de dependência e desigualdade e procure lidar com ela corretamente. É necessário ter cuidado para que essa dependência jamais seja usada contra o parceiro/a parceira, que largou seu país, sua terra natal, seu trabalho, sua família, seus amigos… Aqui é preciso clareza e maturidade de ambos os lados: aquele que sai de seu país deveria aceitar que necessita de ajuda no início, que vai passar por uma dependência inicial e não recusar o auxílio do parceiro/da parceira, seja por orgulho, por medo de ficar eternamente dependente ou seja lá por qual motivo. Já aquele que fica em seu país deveria ter paciência, já que ele estaria na mesma situação do outro, caso o casal tivesse se decidido pelo outro país. E ele jamais deveria abusar dessa situação, usando da dependência, por exemplo, para prender, humilhar ou manipular o parceiro/a parceira.

Um grande perigo nessa fase de dependência é o de um parceiro (aquele que está em seu país) confundir as coisas e se achar realmente superior ao outro. Outro perigo seria o do outro (aquele que abandonou seu país) terminar se achando realmente inferior, já que se sente limitado, podado em suas possibilidades e se encontra numa relação de real dependência.

Muito comum é o parceiro que está em seu país ter o sentimento de que ele faz muito mais pelo relacionamento do que quem vem de fora, já que é ele que fala o idioma, trabalha, financia a vida do casal, tem de resolver assuntos burocráticos e coisas afins. Isso pode fazer com que surjam cobranças no relacionamento. Decerto, também para aquele que fica em seu país a situação não é fácil e pode ser uma carga se sentir responsável por outra pessoa, mas isso não significa que ele faça mais pelo relacionamento. Mesmo que ele tenha que assumir muitas coisas práticas devido às limitações iniciais do outro, ele não pode e não deve se esquecer de que foi o outro que largou tudo, toda sua vida, para que o casal pudesse finalmente viver junto, o que foi um grande sacrifício, no mínimo tão grande como ter de trabalhar para ganhar o pão de cada dia do casal. É decisivo que se entenda que nenhum dos dois está fazendo mais que o outro e que esse passo, o de viver juntos, exige sacrifícios das duas partes. Se um casal quer ficar junto, tudo que ele faz é então por esse objetivo. Não se faz nada pelo outro, mas sim pelo relacionamento.

Abusos acontecem

Não há nenhuma garantia de que um relacionamento dará certo. E isso vale para qualquer relacionamento, tanto faz de onde vêm os parceiros. São muitos os aspectos que favorecem ou desfavorecem um relacionamento e o principal deles é sempre o respeito mútuo. Quando falta esse respeito, a incompatibilidade do casal é algo pré-programado.

Esse respeito pode faltar também em um relacionamento binacional, só que aqui as consequências podem ser bastante graves quando há essa dependência inicial entre o casal. Inúmeras vezes escutei de estrangeiros sobre o sentimento que eles têm de não serem respeitados no relacionamento, de terem um parceiro (ou parceira) que os trata como inferiores, de não terem a impressão de serem levados a sério, de serem tratados como se fossem crianças ou, pior ainda, como se fossem intelectualmente ou culturalmente inferiores.

De fato, já vi casais assim. Recordo-me, por exemplo, de uma brasileira, casada com um alemão, que sempre reclamava disso. Tive cuidado com minhas conclusões no início, pois sempre há duas versões de uma história, mas percebi que ela tinha razão quando vi o casal junto: o alemão falava com a mulher como se ela fosse uma tapada, explicava-lhe as coisas como um pai impaciente que explica algo a uma criança. O cara não perdia qualquer oportunidade de fazer piadas em relação à cultura brasileira, para ele claramente inferior à alemã. E qualquer erro que a brasileira fazia ao falar alemão era rebatido com uma correção em tom severo e desrespeitoso. Vi até ele a chamando de burra por não ter passado na prova para tirar a carteira de habilitação alemã (coisa que nem mesmo alemães costumam conseguir da primeira vez e que, portanto, nada tem a ver com burrice).

Aqui é crucial perceber que aqui o problema não é a dependência e o sentimento de desigualdade do início de um relacionamento, mas sim a forma como se lida com isso. Num relacionamento maduro, no qual o casal realmente se ama e se respeita, esse tipo de coisa não acontece, pelo menos não com tamanha intensidade. E respeitar o outro significa respeitar também sua origem, sua cultura e seu modo de ser. Se um dos parceiros se sente então superior culturalmente (ou intelectualmente), isso significa simplesmente que essa pessoa não possui maturidade para viver um relacionamento, muito menos um relacionamento binacional.

Conhecer, entender, diferenciar e respeitar a cultura do outro

Num relacionamento com alguém de outro país, é muito importante se ocupar com sua cultura, com a forma como se vê a vida no lugar de onde ele vem. E isso tem que ser recíproco e é importante para que ambos se entendam bem, mas também para que possam distinguir quando um conflito tem sua origem em diferenças culturais ou quando se trata de um problema entre as duas pessoas, sem necessariamente ter a ver com a cultura de cada uma delas. Entender a cultura do outro implica também em se livrar de clichês e preconceitos, de folclore e interpretações generalizadas e de ilusões e projeções, coisas que só contribuem para um maior desentendimento e uma distorção da realidade do casal.

Somente entendendo a cultura do outro é que você será capaz de se livrar também de uma armadilha perigosa: a de tentar justificar os problemas enfrentados pelo casal sempre com as diferenças culturais.  Imagine só o que aconteceria se você, brasileiro ou brasileira, conhecesse alguém no Brasil, um brasileiro ou uma brasileira como você, e descobrisse nos primeiros encontros que essa pessoa é muito fria, distante, que nunca demonstra seus sentimentos. Aqui você não começaria a procurar explicações para isso no meio cultural. Você simplesmente constataria isso e, a depender do quanto isso lhe incomodasse, você talvez até se afastasse da pessoa por saber que não quer essa “frieza” em seu relacionamento.

Vejo muita gente desculpando os “defeitos” do parceiro ou da parceira ou coisas que lhe desagradam no relacionamento com as diferenças culturais. É claro que essas diferenças culturais existem e não deveriam ser ignoradas. Mas é essencial afinar os sentidos e o olhar crítico e ver as coisas com a devida diferenciação, não caindo na armadilha de achar que diferença cultural sempre explica tudo. Recordo-me de outra brasileira que é casada com um alemão e sofre. Ela sofre porque o cara é um egoísta, insensível, que coloca suas necessidades acima de qualquer outra coisa e que, consequentemente, não a trata com o devido respeito, com o respeito que deveria existir em qualquer relacionamento. Como ela gosta do marido e quer porque quer que o relacionamento dê certo, ela sempre o desculpa, dizendo a frase “é, alemão é assim mesmo!”. Já tentei mostrar-lhe várias vezes que “alemão não tem que ser assim” e que ela se encontra bem dentro dessa armadilha, mas ela se recusa a compreender que o comportamento do marido não tem nada diretamente a ver com a cultura alemã, mas sim com sua pessoa, ela se nega a perceber que ele (o marido) simplesmente é assim como ele é, devido a seu caráter e sua personalidade, devido a sua história de vida. Ouso-me até a supor que essa mesma mulher provavelmente não estaria com esse marido há muito tempo se ele fosse brasileiro como ela e não existisse mais essa sua desculpa padrão de que a culpa seria da diferença cultural.

A dependência e a desigualdade iniciais podem ser superadas

A dependência e a desigualdade iniciais num relacionamento binacional não são um grande problema quando os dois entendem que elas são unicamente ligadas às circunstâncias e que nada têm a ver com inferioridade ou superioridade entre o casal. Se um dos dois não compreende isso, com certeza as chances desse relacionamento dar certo seriam muito baixas.

Caso você se encontre no início de um relacionamento binacional, esteja no exterior, no país de seu parceiro/sua parceira, e tenha esse sentimento de desigualdade e dependência, entenda que ele é normal, mas entenda também que essa fase só pode ser superada se houver uma postura mútua de respeito, compreensão e aceitação. Se ela não existir, tente rever urgentemente o que há de errado, corrigindo, se necessário e possível, mas sem jamais aceitar que essa situação normal (e temporária!) de dependência e desigualdade ultrapasse qualquer limite de desrespeito por sua pessoa, por sua dignidade. Busque o diálogo e o entendimento, fale com seu parceiro/sua parceira de suas dificuldades, sempre na consciência de que, uma vez superada essa fase, tudo ficará bem mais fácil para o casal.

Respeite os direitos autorais e de propriedade intelectual do autor. Não use sem autorização!




Sobre Gustl Rosenkranz 134 Artigos
Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*