Polícia alemã

Sai de perto que lá vem a polícia!


Estava passeando com uma brasileira pelas ruas de Berlim quando nos deparamos com a polícia revistando e controlando a identidade de um grupo de homens jovens. Duas viaturas estavam em cima da calçada, de forma que a ação da polícia praticamente bloqueava o caminho. Só havia duas opções para continuar nossa caminhada: passar pelo meio do controle policial ou atravessar a rua e passar pelo outro lado.

Como se tratava de uma rua grande, com várias faixas e muito movimentada, resolvi prosseguir por ali mesmo e passar pelo meio da coisa. Só que esqueci que a mulher que estava comigo tinha acabado de chegar do Brasil e estava acostumada com a polícia brasileira. Quando nos aproximamos, ela começou a ficar nervosa e não queria passar, achando que iríamos ter problemas com a polícia se fizéssemos isso. Segurei ela no braço para lhe dar um sentimento de segurança e disse que simplesmente deveríamos seguir, pois não haveria problemas (eu sabia que, se não fosse possível passar, a polícia simplesmente avisaria isso com educação e pediria para tomarmos outro caminho, sem brutalidades, sem grosseria).

Ela continuou nervosa, mas prosseguiu comigo. Ao passarmos pelo lugar, um policial estava na frente, fechando o caminho. Eu pedi licença para passar, ele foi para o lado gentilmente e passamos sem nenhum problema.

Depois, ela, ainda nervosa, ficou também admirada com o ocorrido, repetindo várias vezes que jamais teria feito aquilo no Brasil, pois teria medo de algum policial implicar com ela e terminar sendo agredida ou mesmo presa.

Minha própria experiência com a polícia no Brasil e na Alemanha

Ao escutar isso, recordei-me de minha própria experiência quando cheguei na Alemanha: eu também não me sentia à vontade perto de polícia e ficava desconfiado quando uma viatura policial parava perto de mim.

Precisei de muito tempo para perder esse sentimento de desconforto perante à polícia alemã, mas, com o tempo, fui percebendo que aqui a realidade é outra e que polícia serve à população, trata qualquer um com respeito e profissionalismo e não há essa arbitrariedade e esse abuso de poder que conhecemos tão bem do Brasil.

Entendi que aqui é diferente e, aos poucos, fui perdendo o sentimento de que presença policial seria uma ameaça em potencial. Hoje, a polícia alemã me passa uma sensação de segurança, pois sei que posso contar com ela sempre que necessário, sem precisar temer qualquer (re)ação ilegal, violenta ou arbitrária por parte dela. Um cidadão que nada fez contra a lei não precisa ter medo e pode até discordar/contradizer policias e discutir com eles, sem qualquer problema, já que é um direito seu. E, se um policial não age corretamente, pode-se prestar queixa, sabendo que a coisa será apurada e que o policial será punido por seu erro.

Confesso que a tensão dessa brasileira me deixou triste. Triste por perceber mais uma vez que nada mudou, que a polícia brasileira (mesmo que haja exceções) ainda não consegue passar a impressão de realmente servir à população como deveria. Abusos de poder, prisões aleatórias, violência contra o cidadão e outros absurdos fazem parte da realidade cotidiana no Brasil, ao ponto do cidadão ficar tenso e se sentir muitas vezes ameaçado perto dela.

Polícia violenta

A truculência e a falta de profissionalismo da polícia brasileira não poupa nem crianças.

Fiquei triste também por me recordar de tanta coisa ruim envolvendo polícia no Brasil, como um conhecido meu que morreu assassinado por quatro homens mascarados depois de ter deposto na justiça como testemunha de um assassinato praticado por um policial militar e lembrei-me de um vizinho que teve os dois braços quebrados por policiais simplesmente porque estava no lugar errado na hora errada (ele vinha do trabalho e passou na porta de um bar quando chegou a polícia por causa de uma briga – sem averiguar quem eram os responsáveis, os policiais saíram batendo em todo mundo que estava por perto).

Lembrei do dia que fui à delegacia para conversar sobre o problema de drogas na rua onde morava, com o vizinho as vendendo em casa e um monte de gente estranha circulando pelo lugar. Sem denunciar ninguém, quis falar sobre o assunto e pedir que a polícia tomasse alguma providência, mas fiquei pasmo quando o policial que me atendeu me disse que problemas de drogas na rua não seriam de competência da polícia civil. Estranhamente, dois ou três dias depois, o vizinho traficante mudou de casa, desaparecendo do lugar.

Lembrei-me também de quando estava no Rio e um amigo ia me levar para o aeroporto. Ao sairmos de casa, dois homens esperavam na porta para roubar o carro. Saímos e fomos assaltados. Eles levaram o carro de meu amigo e minha bagagem. A polícia militar levou mais uma hora para chegar e os policiais queriam era saber de meu amigo o valor da recompensa oferecida por ele, caso achassem o carro (tive a impressão de que os policiais sabiam bem onde o veículo estava). Depois, fomos à delegacia fazer o B.O. Mas, por mais que eu tenha insistido, minha bagagem não constava no boletim de ocorrência, o que me fez concluir que havia sistema na coisa, já que uma bagagem que oficialmente não foi roubada não precisaria ser devolvida ao dono, caso encontrada.

Eu poderia dar muitos exemplos e há também muitos vídeos, fotos e relatos na internet que comprovam o que estou dizendo. E todo mundo sabe que isso é assim. Quem nega essa realidade só pode estar tapando o sol com a peneira ou realmente perdeu qualquer noção de humanidade e do real papel da polícia na sociedade.

Sou teimoso, teimoso em sonhar

Sou teimoso, teimoso em sonhar, teimoso em manter o otimismo e em acreditar que um dia o Brasil também chegará lá, com uma sociedade mais justa e mais humana, com menos violência, com os cidadãos podendo sair de casa sem medo (sem medo de bandidos, sem medo da polícia), com menos abusos e com uma polícia profissional, que entenda que ela existe para servir ao povo e não para maltratá-lo, para dar a ele um sentimento de segurança e não de ameaça.

Insisto em sonhar que um dia a polícia brasileira possa supor de si mesma o que a polícia alemã supõe: que ela é amiga do cidadão e existe para ajudá-lo. O slogan da polícia alemã é “Die Polizei – Dein Freund und Helfer” (ao pé da letra: A polícia – Seu amigo e ajudante”). Continuo acreditando que um dia escutarei o mesmo da polícia no Brasil e que dará para acreditar.

 

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.