Gustl Rosenkranz
Tem acarajé em Marte?
Início » Artigos » Outras Coisas » Tem acarajé em Marte?

Tem acarajé em Marte?

A história de Vavá, um menino que vivia no sertão baiano, gostava de acarajé e ficou com vontade de ir para o planeta Marte.


Vavá voltava da escola e estava sentado na sombra de um umbuzeiro, fugindo do sol quente e fazendo uma pausa, antes de prosseguir para a casa do avô, que o esperava para almoçar e que mandou recado por seu Antônio, pedindo para trazer pilhas para o rádio. Onde os avós viviam, não tinha eletricidade. Na verdade, não tinha praticamente nada, ali no meio da Caatinga, cercado de facheiros e cabras. O avô gostava de ouvir notícias no rádio depois do almoço e estava precisando de pilhas novas, que a mãe havia comprado no dia anterior e que ele agora estava levando.

Ele parava sempre por ali e gostava de ficar olhando as cabras, que circulavam no lugar e comiam tudo que achavam pela frente. Elas comiam tudo de tudo mesmo! Certa vez, comeram até uma folha de caderno que ele deixou cair. Se tinha uma coisa que aquelas cabras não conheciam era falta de apetite.

Enquanto observava as cabras e chupava umbu, começou a pensar na vida e que estava com muita vontade de comer acarajé, sua comida predileta.

Ele sonhava em ir para Salvador, a capital dos acarajés, que ele imaginava como um paraíso, onde poderia saciar sua vontade em cada esquina. Ali onde vivia, no meio do sertão, num pequeno povoado entre Senhor do Bonfim e Juazeiro, até que tinha o acarajé da praça, que ele adorava, mas ele viu na televisão que em Salvador tinha gente fazendo fila para comer o acarajé de uma Baiana lá na praia de Itapuã. Ele sabia que um dia seria ele ali o primeiro daquela fila.

E o mar? Ah, o mar! Aquele mundão de água, mais que no açude de Cocorobó. Ele viu na TV que era grande e Horácio, seu amigo e colega de classe, disse que era até maior que a barragem do Sobradinho, que ele não conhecia, mas sabia que era enorme. Será? Um dia, em Salvador, ele saberia disso e também se a água do mar seria mesmo salgada, coisa que ele não conseguia crer direito.

Depois do almoço, ele queria ajudar um pouco o avô com os afazeres. E o avô com certeza não deixaria de lhe dar uma gorjeta, que ele, no final da tarde, usaria para comer acarajé com os amigos na praça, como fazia toda sexta-feira.

Tomou novamente o caminho, enfrentando o sol sertanejo, que castigava a essa hora do dia, e buscava andar por caminhos de terra, pois seguir a estrada tinha o perigo da sola do tênis derreter e colar no asfalto, que também amolecia com o calor, o que já havia lhe acontecido muitas vezes. Só tinha que ter cuidado com o cansanção, essa planta maldita que ardia muito na pele e que crescia por todos os cantos por ali.

Chegou à casa dos avós e comeu rápido, na verdade, não comeu quase nada, pois já tinha a barriga cheia de umbus e pensava no acarajé de mais tarde. Levantou-se da mesa, pegou as pilhas na mochila e as deu para o avô.

A casa dos avós era uma construção singela de duas águas, paredes de taipa e chão de terra batida, mas tudo lá era sempre muito limpo e bem cuidado. O interior era bem arrumado, o chão varrido, uma rede num canto e uma imagem do Cristo na parede. Sobre uma vitrine antiga, vigilava uma estátua de Nossa Senhora sobre uma toalhinha de renda amarela, face a face com uma foto em preto e branco e desbotada dos bisavós na parede oposta. Em outro canto, um fogão a lenha e uma mesa simples enobrecida por uma toalha de renda branca, com dois bancos longos, onde todos se sentavam para comer, conversar ou ambos. Num outro cômodo, dormiam os avós.

Depois do almoço, o avô costumava se deitar na rede e escutar os noticiários no rádio. Era um lavrador, uma pessoa simples, que nunca visitara uma escola, mas se interessava pelas coisas que aconteciam pelo mundo afora.

A missão MARTE

Vavá ajudava a avó na cozinha, mas escutava com interesse o que dizia a voz no rádio. Ele secou rapidinho os pratos para ir escutar mais de perto. Falava-se do planeta Marte e dos planos da NASA de mandar gente para lá.

Aquela história o fascinou. Ele ficou se imaginando numa nave espacial, viajando para Marte e conhecendo seus habitantes verdes.

<<Vô, eu quero ir pra Marte. Será que a nave me leva?>>, disse ele com os olhos de menino sonhador.

O avô sorriu alto e disse que ele esquecesse aquilo, pois Marte seria muito longe.

Mas o menino nem quis saber, ele agora queria ir para Marte de qualquer jeito.

<<Poxa, vô, é longe, mas com a nave é rapidinho!>>, insistiu ele.

<<Menino, tire isso da cabeça. Não tem lugar para menino não. Para ir junto, tem que ser astronauta e americano!>>

Vavá ficou triste, já que nem sabia direito o que era um astronauta e americano ele sabia que não era. Mas tentou mais uma vez:

<<E se painho e mãinha forem juntos, será que eles deixam?>>

<<Esquece isso, menino. Tire essas minhocas da cabeça!>>, disse o avô e se levantou para continuar o trabalho que estava fazendo lá fora.

Vavá foi junto, calado e pensativo, triste porque viu que não tinha chance de ir para Marte.

Tem acarajé em Marte?

Logo mais, quando resolveu ir para casa e o avô lhe deu um trocado, ele se lembrou do acarajé que queria comer na praça com os amigos mais tarde, olhou para o avô e perguntou em tom bem sério:

<<Vô, em Marte tem acarajé?>>

<<Claro que não!>>, respondeu o avô. <<Acarajé é coisa de baiano e não de marciano, menino!>>, completou, sorrindo.

Vavá escutou aquilo com alívio, pois agora sabia que não queria ir para Marte coisa nenhuma. Mudar de planeta, tudo bem, mas viver sem acarajé? Isso não era para ele.

<<Coitados dos marcianos, né vô?>>, disse ele, despedindo-se em seguida também da avó e tomando o caminho de volta, feliz por viver na Bahia e não em Marte.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

Direitos autorais e uso de material deste site

Facebook

Escreva um comentário