Gustl Rosenkranz
Início » Artigos » Outras Coisas » Vamos a Belém – Uma história de Natal

Vamos a Belém – Uma história de Natal

Melquior, Baltasar e Gaspar foram para Belém do Pará passar o Natal com José e Maria e o menino Jesus, que estava para nascer.


Melquior, Baltasar e Gaspar, três refugiados persas, receberam uma semana antes do Natal o comunicado de que o seu pedido de asilo político na Alemanha fora recusado. Desesperados e com medo de serem deportados para o Irã, onde com certeza seriam presos, maltratados e torturados, lembraram-se do amigo José, um brasileiro que conheceram em Frankfurt e que já tinha sido banido da Alemanha há dois anos por ter permanecido por aquelas bandas ilegalmente. Lembraram-se do amigo e da sua última carta, que escreveu dizendo que agora estava casado e vivia na cidade de Belém, no norte do Brasil, com a sua mulher Maria, que estava grávida e na iminência de dar à luz um menino que iriam chamar de Jesus. Como todo bom brasileiro, que se acha hospitaleiro e faz convites a torto e a direito sem pensar nas consequências, José convidara os amigos persas para passar o Natal em Belém, às margens do que ainda sobra da Floresta Amazônica. Os persas sabiam que o Brasil gostava de iranianos, pois viram na televisão com quanta honra até mesmo o seu ex-presidente, um louco que queria construir a bomba atômica para jogar em Israel, foi recebido por lá.

Os três persas não hesitaram em tomar a única decisão viável: rasparam o dinheiro que tinham e compraram três passagens de Frankfurt para Salvador da Bahia. De lá, chegariam de alguma forma a Belém, que não deveria ser tão distante, acreditavam eles.

A caminho do aeroporto, perceberam que não poderiam chegar à casa do amigo sem levar pelo menos um pequeno presente. Ao passarem à frente de uma loja, dessas que vendem de tudo por preços irrisórios, tiveram a ideia de levar incensos indianos, pois se lembraram que José costumava usá-los para disfarçar o cheiro de maconha no quartinho, no qual praticamente se escondia em Frankfurt. Cataram nos bolsos e juntaram as últimas moedas, entraram na loja e compraram dois pacotes de incenso indiano fabricado na China por dois euros e sessenta centavos.

Ao chegarem ao aeroporto de Frankfurt, nossos três amigos persas partiram para o embarque, preocupados somente com o controle de passaporte, pois ainda não sabiam se necessitavam de visto para ingressar no Brasil e se podiam sair assim da Alemanha ou se teriam problemas.

Foram controlados por um policial alemão nervoso e estressado, que tinha um nariz vermelho e espirrava todo o tempo. Quando o policial perguntou o que eles queriam fazer no Brasil, eles mostraram a carta e disseram que iriam para Belém visitar José e Maria e o filho Jesus, que estava para nascer. O policial, sem crer na história e muito bem informado sobre as leis, que não permitiam que quem requereu asilo político abandonasse o país assim, sem mais nem menos, quis mandar prender os três, mas pensou que, por outro lado, seria bom se a Alemanha se livrasse de três terroristas em potencial. O Brasil que se virasse com eles. Fez de conta que estava tudo em ordem e permitiu que os três passassem.

Com mais de uma hora de atraso, o avião finalmente decolou e os três estavam tão aliviados que nem deram conta dos maus-tratos dispensados pela companhia de aviação a todos os passageiros, que tinham que sentir na pele o que significa viajar “Com-dor”.

Chegando a Salvador, tiveram que passar novamente pelo controle de passaporte, desta vez pela polícia brasileira. Uma policial, com um crucifixo no peito e cara de esotérica, perguntou aos três o que queriam no Brasil. Eles repetiram a história, mostraram a carta e a mulher ficou comovida, pois ela mesma sempre teve vontade de visitar a cidade natal do Nosso Senhor Jesus e já tinha pensado várias vezes em viajar de férias para Belém do Pará. Com os olhos úmidos e um tom dócil de espírita que acaba de chegar do culto de candomblé, ela permitiu que os persas prosseguissem.

Eles chegaram ao saguão do aeroporto pingando de suor, já que ainda estavam com roupa de inverno e o sistema de ar condicionado do aeroporto não funcionava. Eles sentiram-se totalmente desorientados e resolveram perguntar a alguém como poderiam chegar a Belém, usando algumas frases que tinham traduzido com a ajuda do Google numa LAN-House de Frankfurt:

>>Como podemos por favor, venha para Belém?<<, perguntou Baltasar a um senhor gordo e baixinho que parecia esperar por alguém.

>>Belém? Sinto muito, não sei informar<<, respondeu o senhor, de forma gentil.

Baltasar folheou suas traduções do Google, anotadas em um caderninho, e complementou a sua pergunta:

>>Belém está sitiada em norte.<<

>>Ah, sim, porque não disse logo. O Norte é pra lá. Sigam sempre nesta direção<<, disse o senhor, apontando então no sentido de Lauro de Freitas e da Estrada do Coco, indo embora em seguida, sorrindo cordialmente e levando uma das malas dos persas, sem que esses, ainda desorientados, percebessem que acabavam de ser roubados.

Com uma mala a menos e ansiosos para chegar a Belém e rever o amigo José, eles partiram a pé para o Norte. Já era de noite, na altura de Jauá, quando eles, sem vontade de prosseguir no escuro, resolveram pedir carona. Não demorou muito para que parasse um carro com dois homens, que perguntaram para onde queriam ir. Baltasar, que se auto-encarregara das traduções, disse que queriam ir para Belém. Os dois homens olharam um para o outro, riram e disseram:

>>Que sorte, tamo indo pra lá!<<

Meia hora depois, os persas, sem saber onde estavam, se viram na Via Parafuso, no meio do nada. O carro parou e um dos homens apontou um revólver para os três e disse:

>>Desce, desce logo, p… Larga as mala aí e desçam calado, senão vão levar bala!<<

Sem entender direito o que o homem dizia, mas sabendo muito bem que estavam sendo assaltados, desceram do carro e ficaram ali, sem nenhuma ideia do que deveriam fazer. Mas logo mais passou uma viatura da polícia militar. Aliviados, eles acenaram, pedindo ajuda. Os policiais pararam a viatura, desceram e se dirigiram aos três com a hospitalidade de polícia militar baiana:

>>Deita no chão e mãos atrás da cabeça, vombora vagabundos!<<, disse um deles. Como os persas não compreenderam e ficaram ali de pé, olhando para os policiais, não demorou até que tomassem uma coronhada de revólver e fossem jogados ao chão com violência. Gaspar pensou que começava naquele momento a estimar a polícia alemã, que muitas vezes lhe deu a entender que ele não era bem-vindo, mas que nunca lhe tocara a mão. Ainda levaram alguns pontapés, antes de serem algemados e jogados no fundo da viatura. Passearam assim gratuitamente durante horas no camburão, sendo mais tarde entregues na delegacia de Monte Gordo, onde conheceram também a hospitalidade da polícia civil.

Somente vários dias mais tarde, já depois do Natal, com a chegada do delegado, que tinha feito uma blitz e trazido vários marginais, eles foram novamente soltos, não por se ter reconhecido alguma injustiça, mas porque havia poucas celas e muita gente para prender.

Feridos, sujos, sem dinheiro, sem bagagem e totalmente perdidos, chegaram ao meio-dia ao posto de gasolina de Guarajuba. Já era 31 de dezembro e os baianos estavam tão estressados e preocupados com as festividades de Ano Novo e da Confraternização Universal que ninguém percebeu aqueles homens desorientados, até que finalmente um caminhoneiro, que havia parado para abastecer, puxou conversa com os três.

Depois de alguma dificuldade de comunicação, seu Mateus, o caminhoneiro, que mais tarde viria relatar ao mundo a história dos três persas a caminho de Belém, entendeu mais ou menos o que se passava e explicou aos visitantes do Irã que Belém era muito distante, mas que ele estava indo para Aracaju e depois Recife. Ele ofereceu carona aos três e prometeu ajudá-los em Recife a tomar um ônibus para Belém.

Um pouco depois, partiram rumo ao norte, ainda sem saber que o caminhão de seu Mateus quebraria várias vezes e que eles somente chegariam a Recife vários dias depois.

Chegando a Recife, seu Mateus, realmente uma boa alma, cumpriu o prometido e comprou para os três as passagens de ônibus para Belém. Além disso, em uma das pausas na rodovia, ele havia conseguido com muito sacrifício o telefone de José em Belém. Depois de falar com José, seu Mateus sabia até como os três visitantes do Oriente poderiam chegar à sua casa, no bairro do Coqueiro. Como referência, José indicou a torre de telefonia celular, facilmente reconhecível de noite por uma lâmpada forte que piscava no seu topo.

No dia 6 de janeiro, já de noite, eles finalmente chegaram ao bairro do Coqueiro, em Belém, e, de fato, viram de longe uma luz forte a piscar no céu. Caminharam sempre em direção a essa luz, Baltasar à frente, com muita pressa.

Cansados e desanimados, eles esqueceram por um instante todo o sofrimento vivido ao chegarem ao barraco do amigo e verem José e Maria com o menino Jesus, sorridentes, esperando pelos três amigos. Mais tarde, sentados na porta do barraco, o amigo José disse que estava bem, ele estava somente preocupado com os Herodes que governavam o país, pois pareciam fazer de tudo para que crianças brasileiras não tenham futuro.

Num momento de profunda confraternização com o amigo brasileiro, os persas lamentavam somente que até o incenso, o presente trazido para José, Maria e Jesus, havia sido roubado. Eles fumaram um baseado, relaxaram e sentiram, por um momento, muita paz interior e alegria de rever o amigo, mas sabiam que não ficariam muito tempo por ali, pois perceberam claramente que, sendo pobre, não havia muita diferença entre ser preso no Irã e viver livre no Brasil.

Feliz Natal!

NOTA: ESTE TEXTO É FICTIVO. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS E SITUAÇÕES REAIS TERÁ SIDO MERA COINCIDÊNCIA.

Betlehem and three Kings

 

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

Direitos autorais e uso de material deste site

Escreva um comentário

Gustl Rosenkranz